Efeito Uber nos bancos

Efeito Uber nos bancos

Acabo de ler uma interessante reportagem publicada no The Wall Street Journal de hoje, sobre a SoFi, uma fintech de São Francisco, EUA, que começou emprestando dinheiro para universitários e já chegou ao seu primeiro bilhão – de dólares. O fundador, Mike Cagney (na foto acima) diz que pretende ser uma alternativa aos bancos tradicionais – ele é um ex-surfista que se formou em economia e chegou a trabalhar em bancos. E não pretende sucumbir a nenhuma proposta de aquisição por parte de um deles.

Leia abaixo o texto na íntegra (o link leva ao original em inglês):

A uberização dos bancos

Por ANDY KESSLER de San Francisco

No movimentado distrito financeiro de San Francisco, você pode encontrar uma agência do Wells Fargo Bank decorada com uma diligência antiga. Mas eu estava interessado mesmo em falar com um ex-funcionário do banco, então fui a outro lugar, à SoFi, uma empresa de tecnologia financeira (“fintech”) que está fazendo de tudo para virar o sistema bancário de pernas para o ar. Entrei no Presidio, uma antiga base militar que agora é um complexo comercial e tem uma vista linda da ponte Golden Gate, de Alcatraz e, se você olhar através da neblina, do futuro.

Na sede moderna, de plano aberto e sem escritórios da SoFi, encontrei Mike Cagney, diretor-presidente e um dos seus fundadores. Vestindo jeans e uma camiseta cinza da empresa, o californiano de 45 anos fala com uma voz profunda e um tom de confiança e entusiasmo. Com o que ele está tão confiante e entusiasmado? Usar o smartphone para fazer com os bancos o que a Amazon fez com as livrarias e a Uber fez com as frotas de táxis. “Haverá uma redistribuição sísmica de valor de mercado no mundo bancário”, diz ele. “Eles não vão perceber até que já tenha acontecido.”

Boa parte dos americanos não tinha certeza do que estava vendo quando a TV exibiu um anúncio da SoFi durante o Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano, neste ano. Mas a propaganda em horário nobre foi uma bandeira que marcou o território dessa empresa jovem que sonha alto. A pergunta é se a SoFi vai se tornar uma Apple Inc. ou apenas mais uma empresa fazendo negócios na internet.

Ela surgiu há poucos anos como uma pequena firma que fazia empréstimos estudantis com retorno praticamente garantido na Faculdade de Administração de Stanford e já se expandiu para um crédito estudantil mais generalizado, agregou hipotecas, empréstimos pessoais e gestão de fortunas. Cagney diz que a SoFi já fez mais de 150 mil empréstimos, num total de US$ 10 bilhões, e hoje empresta US$ 1 bilhão por mês.

Como ele chegou a isso? O aspirante a exterminador de bancos cresceu surfando. Ele diz que se qualificou para entrar em faculdades mais renomadas, mas que sua prioridade eram as ondas e, por isso, matriculou-se na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, onde se formou em economia aplicada. Ele também aprendeu sozinho a programar. Em 1994, tomou a rota tradicional, um emprego num banco — o Wells Fargo, na área de gestão de risco de crédito. “A gente vendia um swap de crédito [CDS] para XYZ e aí o despejava no J.P. Morgan.”

O jovem funcionário sugeriu que o Wells Fargo poderia lucrar muito mais se mantivesse o risco em casa. Mas a tecnologia era muito antiga — Fortran, Cobol e terminais IBM 3270 —, então ele foi encarregado de um projeto de um ano para criar um sistema moderno. “Fechei-me com minha esposa durante um fim de semana e reescrevi tudo e coloquei em prática.” O banco ganhou muito dinheiro negociando derivativos, lembra ele, mas, como todo mundo em Wall Street sabe, você ganha dinheiro nos bancos de investimento, não nos bancos comerciais, então as pessoas realmente boas saem.

Cagney saiu em 2000 para criar uma empresa de software de gestão de fortunas — o momento não foi ideal, já que a bolha da internet estourou. A Finaplex, como a firma se chamava, foi vendida em 2007 e Cagney decidiu levantar fundos para começar a operar no mercado outra vez. Todo mundo disse que ele tinha passado muito tempo fora, mas ele pensou “é o mesmo mercado”, e mergulhou de cabeça.

“Uma das características mais importantes de um empreendedor é que você precisa ser obtuso o suficiente para não escutar quando todo mundo está te dizendo que você não pode fazer alguma coisa”, diz Cagney, “mas não tão obtuso a ponto de tentar fazer carros voadores”.

A família Getty foi um investidor-âncora e ele acabou com 200 sócios e um fundo que administrava cerca de US$ 1 bilhão. Ele fechou o fundo no começo de 2008 para se concentrar em três investidores. Um deles era Gordon Getty. Cagney diz que, quando a crise financeira começou, Getty o encorajou a procurar uma maneira melhor para os bancos operarem sem ficarem excessivamente alavancados. Isso levou Cagney a refletir, bem como uma reunião que teve com Chris Larsen, que tinha criado o Prosper Marketplace, um mercado de empréstimos de pessoas para pessoas. “Ele era o único fazendo algo disruptivo”, diz.

Cagney ganhou uma bolsa de um ano na faculdade de administração de Stanford, um celeiro de ideias inovadoras. Foi lá que conheceu os futuros sócios que o ajudariam a fundar a SoFi. Eles começaram a estudar classes de ativos. Os empréstimos estudantis eram interessantes: um mercado de US$ 1,3 trilhão, sendo que 65% dos alunos de faculdades de administração recorriam a empréstimos, pagando juros de 6,8% a 7,9% ao ano numa época em que o custo do capital era de 4,5%, desde que você pudesse administrar o risco.

“Há um crédito muito bom por aí se você procurar”, diz Cagney. Ele procurou e procurou, até que conversou com o escritório de ajuda financeira de Stanford e descobriu que ninguém da faculdade de administração tinha deixado de pagar sua dívida estudantil em 30 anos. Foi sua inspiração.

Cagney tirou uma licença para emprestar dinheiro e pediu que 40 ex-estudantes lhe dessem US$ 50 mil cada em troca de um retorno de 5% ao ano. Seu plano era fazer empréstimos de US$ 20 mil para 100 estudantes, cobrando juros de 6,25% e embolsando a diferença — o mesmo que os bancos fazem todos os dias.

No começo, nenhum estudante pediu empréstimo. “Nós começamos a cercá-los na porta do escritório de ajuda financeira [da universidade], bem estranho, e perguntar por que eles tomavam empréstimos do governo em vez de outros com uma taxa menor. E eles diziam: ‘Bom, não tenho ideia de quem vocês são. O que é a SoFi? Você vai me ligar durante o jantar?’ Foi minha primeira lição sobre [posicionamento] de marca.” Eles acabaram encontrando 100 tomadores e nenhum ficou inadimplente. E assim nasceu a Social Finance Inc. Agora, a firma de quatro anos se identifica só como SoFi porque “as pessoas pensavam que a gente estava emprestando para baleias”.

A busca por tomadores de crédito com pouco risco funcionou em Stanford e Cagney logo percebeu que poderia usar o mesmo conceito em outros lugares. O empreendedor diz que a SoFi já emprestou para cerca de 100 mil estudantes e só 14 deles ficaram inadimplentes, sendo que a metade desses não pagaram porque morreram. “Nunca ninguém teve um histórico de crédito como esse”, diz, acrescentando que a taxa de inadimplência anual da empresa é de 0,02%.

Cagney ainda está na fase da exuberância, ansioso para falar sobre as despesas enxutas que a SoFi tem graças a seu algoritmo e sua capacidade de atrair clientes a custo baixo. Metade do volume de empréstimos da SoFi é gerado através de indicações. E tudo é feito pelo smartphone — “um telefone é uma agência onipresente que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Ninguém quer estacionar o carro e ir ao banco entre nove da manhã e cindo da tarde”, diz Cagney. A SoFi também presta muitos serviços aos clientes, como ajudá-los a procurar trabalho e a melhorar o currículo, diz ele. “Encontramos mais de 170 novos empregos para as pessoas até agora.”

É por isso que os bancos estão tão vulneráveis. “Trata-se da recategorização do negócio. Não é banco transacional. Tudo tem a ver com dinheiro, carreira e relacionamento.”

A Sofi precisaria elevar seu volume de empréstimos ao consumidor de US$ 10 bilhões para US$ 100 bilhões se quiser desafiar os bancos grandes da mesma maneira que a Amazon fez com o varejo e a Uber com os táxis. Os céticos dizem que isso é improvável, principalmente em ciclos econômicos recessivos — bancos são mais seguros porque os depositantes continuam fiéis e não se importam de receber um retorno menor em troca de contras bancárias e o uso de caixas eletrônicos sem tarifas.

E se os bancos tentarem cooptar a Sofi? Ele diz que não está interessado e que, em vez disso, pode acabar alugando as carteiras de seguradoras e fundos soberanos. Eu diria que, como surfista, ele vai tentar surfar essa onda o máximo que puder.

Andy Kessler é gestor de fundo de hedge e autor de “Eat People” .

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