ENTREVISTA: Maria Rita Spina Bueno

ENTREVISTA: Maria Rita Spina Bueno

As “anjas” do Brasil

Em 2013, Maria Rita Spina Bueno trabalhava havia dois anos com seu irmão, Cassio Spina, fundador da rede de investidores Anjos do Brasil. De repente, ela começou a se sentir incomodada, muito incomodada. Demorou um pouco até entender o por quê: a falta quase total e absoluta de mulheres, tanto no mundo dos investidores quanto no mundo dos empreendedores de startups. No começo, supôs que era um problema local, brasileiro – mas logo descobriu que não. Só que, no exterior, já estava começando a aparecer movimentos para reverter isso. Então, pensou: “Se elas podem, eu também posso”. E criou o Mulheres investidoras Anjo (MIA) – um movimento que, como diz o nome, visa trazer mais mulheres para o mundo dos investidores anjo. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Maria Rita concedeu ao portal Fintechs Brasil:

FINTECHS BRASIL: Como surgiu a ideia de fundar o MIA?

MARIA RITA: Eu estava incomodada com a supremacia dos homens no mundo dos investidores e startups. Nada contra os homens, convivo muito bem, inclusive com meu irmão, com meu marido. Mas quando se fala em inovação, quanto mais diversidade de ideias melhor. Inovação é dar respostas diferentes para os problemas que existem, e quando há pessoas diferentes pensando junto, no geral as soluções que surgem são mais criativas. Homens e mulheres tendem a ter experiências diferentes e complementares, juntos agregam pontos de vista. Seguindo exemplos de fora, decidi lançar um movimento de fomento ao investimento anjo feminino para apoiar a entrada de mais mulheres como investidoras e assim indiretamente apoiar também empreendedoras de startups. Convidei Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora e Camila Farani, na época sócia do Lab22, para cofundarem o MIA. Nós três compartilhamos a mesma visão sobre a importância da diversidade na construção de negócios inovadores e nos completávamos no conhecimento e contatos sobre a realidade de investidoras e empreendedoras brasileiras. Hoje o MIA está integrado à rede da Anjos do Brasil.

FINTECHS BRASIL: O MIA é uma rede de mulheres que investe em empreendimentos femininos?

MARIA RITA: Não, somos um movimento que incentiva mulheres a entrar no mundo dos investimentos, e promovemos sua capacitação. Acreditamos que esse é um assunto que precisa ser trazido à tona, precisa ser desmistificado. Já impactamos mais de mil mulheres. Estamos conseguindo resultados positivos, mas ainda longe do ideal. Grande parte das mulheres se envolve pouco com investimentos em geral, nossa missão é sensibilizar as mulheres para o tema, capacitá-las e ajudá-las a se integrarem às redes de investidores. A realidade ainda é de muitos homens empreendendo, muitos homens investindo e poucas mulheres no ecossistema.

FINTECHS BRASIL: Como o MIA ajuda a fomentar o empreendedorismo feminino?

MARIA RITA: Acreditamos que mulheres investidoras tem a capacidade de analisar, entender melhor e se solidarizar mais com empreendimentos feitos por outras mulheres. Percebemos na prática que quanto mais trazemos mulheres para o mundo dos investidores, mais as empreendedoras conseguem levantar dinheiro. O ser humano tende a se conectar com pares, investidores masculinos tendem a avaliar as empreendedoras femininas com vieses de gênero. O Brasil tem um grande volume de empreendedoras mulheres, mas elas estão em negócios pequenos, para subsistência; as startups inovadoras têm poucas mulheres à frente.

FINTECHS BRASIL: Quantas mulheres já se juntaram à rede e quantas já investiram?

MARIA RITA: Não acompanhamos todas as mil que já passaram por nossos programas de capacitação. Mas em 2013, somente 2% da rede Anjos do Brasil era mulher; hoje são 12%.

FINTECHS BRASIL: Em quais empresas e quanto as “anjas” investiram?

MARIA RITA: Difícil levantar números, são investidoras individuais, investimentos privados. Em 2020 a rede Anjos do Brasil como um todo investiu em 12 startups e dessas, sei que duas tem uma mulher como cofundadora. Os recursos investidos ficam entre R$ 200 mil e R$ 800 mil. Em 2019 o investimento médio foi de R$ 600 mil.

FINTECHS BRASIL: Você também atua como ‘anja’?

MARIA RITA: Sim, já fiz quatro investimentos. Minha tese é em investimentos de impacto ou em startups de mulheres. Investi na 33/34, que fechou (era um e-commerce de sapatos para pés pequenos); na PetAnjo (serviços para pets, como hospedagem, passeios e babá); Weuse (economia circular, de locação de roupas); e Incentive (conecta empresas com acesso a incentivos governamentais com ONGs que podem usar esses incentivos). Não tenho muitos recursos para investir, já que trabalho em uma ONG (o MIA) e parei de trabalhar nas empresas da família quando tinha 40 anos. Então eu mesma sou a prova de que não é preciso muito dinheiro para ser um investidor anjo.

FINTECHS BRASIL: Qual é sua formação?

MARIA RITA: Entrei na Escola Politécnica (USP) muito jovem, com 17 anos. Eu queria mesmo era ser engenheira aeroespacial, mas na época a única escola que oferecia o curso, o ITA, não aceitava mulheres. Depois de dois anos cursando engenharia na USP, decidi que não era o que eu queria. Na época, eu trabalhava numa empresa da família e fui cursar Filosofia, na mesma USP.  Sempre trabalhei em empresas financeiras da família. Perto dos 40 anos fiquei cansada e tirei um ano sabático, que virou vários anos sabáticos. Voltei para a USP para fazer mestrado em Filosofia, depois morei um tempo no Chile e quando voltei novamente, fui fazer doutorado. Era 2011, quando meu irmão chamou para  ajudar na Anjos do Brasil.

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