“Bancos entram em novos negócios para reagir ao avanço de fintechs e varejistas”

“Bancos entram em novos negócios para reagir ao avanço de fintechs e varejistas”

Há alguns anos se discute qual será o resultado da guerra fintechs x bancos; mais recentemente, surgiu a tendência de “fintechzação” do varejo, que vem criando suas próprias plataformas de serviços financeiros. Será que os bancos estão mesmo sob ameaça?

Com sua experiência de mais de 30 anos de mercado financeiro, Rogério Calderón vê os bancos reagindo ao avanço das fintechs e varejistas no seu negócio. Como? “Expandindo seu raio de atuação e entrando em outros mercados”, disse, em entrevista exclusiva ao portal Fintechs Brasil. É o que se pode chamar de concorrência cruzada, ou seja, bancos não concorrem mais apenas com bancos, mas com outros players de outros segmentos. E vice-versa.

Atualmente, Calderón é conselheiro da Via Varejo e Alupar, e foi executivo de finanças, controladoria e de relações com investidores do Unibanco, Itaú e HSBC, além de ter atuado como líder do segmento de varejo da PwC no começo da sua carreira.

“As instituições financeiras tradicionais começam a avançar no sentido de abocanhar pedaços cada vez maiores das vendas do varejo, incluindo estoque e distribuição, por exemplo. Algumas nem perceberam ainda, não construíram uma estratégia”, afirma. “Mas é uma tendência”.

O Itaú, por exemplo, está vendendo iPhones a prazo, adminstrando estoque e entrega. “É só o começo”, afirma Calderón. Ele acredita que “todo mundo vai ser tudo”, para conseguir tirar o máximo de rentabilidade da sua carteira de clientes. “Depois da era da especialização, estamos de volta à era anterior, quando todos queriam tirar o máximo proveito e atender toda a sua cadeia”. Mas ressalva: “Todo mundo pode ser e fazer tudo o que agregar valor. Mas é preciso ter cuidado para não abraçar o que pode destruir valor”, aconselha.

“Concorrência é saudável”

Muitos dos novos negócios para os bancos devem surgir de parcerias que o setor já fomenta com fintechs e outras startups. Neste ano, até o Banco do Brasil entrou nessa de incubar empresas de tecnologia, a exemplo do que já fazem há tempos Itaú (com o Cubo), Bradesco (com o inovaBra) e a seguradora Porto Seguro (com a Oxygen), entre muitos outros.

A ideia de “cada um no seu quadrado” vem sendo desafiada pelas Big Techs (Alphabet, dona de Google/Youtube; Facebook, dono do Instagram/Whatsapp; Apple; Amazon e Microsoft). Foi a arqutietura aberta que introduziram que permitiu a “invasão” de empresas não-financeiras no setor financeiro – mas essa é uma via de mão dupla.

“Tudo começou quando os bancos passaram a introduzir programas de pontos próprios nos seus cartões de crédito”, lembra. Alguns criaram até empresas específicas para isso, como a Livelo (do Banco do Brasil e Bradesco). O modelo envolve parcerias com terceiros, mas agora começaram a entender como a cadeia funciona e estão partindo para voos solos.

Calderón diz que o sonho do monopólio é reconfortante por um lado, mas por outro é insustentável nos dias de hoje. “Sustentável é a concorrência”, diz. Ou seja: veremos cada vez mais concorrência, inclusive esse tipo de concorrência cruzada.