Fintechs de contabilidade crescem com a demanda e já atraem investidores e players internacionais

Fintechs de contabilidade crescem com a demanda e já atraem investidores e players internacionais
Caduceu de Hermes (ou Mercúrio), o símbolo das ciências contábeis

Learmachs, Contabilizei, Comece com o Pé Direito, Syhus, Account Bank, Dootax, ROIT. O que essas empresas têm em comum? Oferecem serviços de contabilidade totalmente digitais, com algum grau de consultoria acoplado, para startups e fintechs. Embora seja um assunto chato para muita gente (ou nada sexy, como está na moda falar), esse é um nicho que está chamando cada vez mais a atenção de investidores e players internacionais.

A Learmachs International chegou no Brasil recentemente, e está ajudando a MaxiPay a virar banco; e a Contabilizei anunciou hoje um aporte do Softbank.  Ambas ajudam os clientes desde a abertura do CNPJ e da conta bancária, até a rotina diária das obrigações.

Mas não é só. Tem mais. Continue lendo.

O sucesso das fintechs de contabilidade está diretamente relacionado ao fato de que vieram para resolver uma dor real dos empreendedores brasileiros.

“O cenário tributário brasileiro é extremamente complexo. Existem 1.031 tipos de Classificação Nacional de Atividades Econômicas no país e mais de 80 tipos jurídicos possíveis de serem constituídos no Brasil, aos quais adicionamos mais de 600 data points trabalhistas, blindatórios, sucessórios, societários, ao conjunto de todos os impostos diferentes praticados pelos estados, municípios e pela própria federação”, diz o CEO e cofundador da Learmachs, Roger Mitchell Madeira.  

A Learmachs desenvolveu um sistema chamado SOFIA (sigla para Sistema Operacional Fiscal com Inteligência Artificial), alimentado por todos esses dados que ajuda na análise e decisão.

A ROIT também usa IA – seus robôs já realizaram mais de oito milhões de lançamentos fiscais sem intervenção humana, segundo a fintech (leia mais no final do texto).

Já a Contabilizei é uma das primeiras e maiores fintechs de contabilidade do Brasil. O aporte de hoje foi liderado pelo Latin America Fund do japonês SoftBank, um dos principais investidores em tecnologia da região (que inclui nomes como Creditas, QuintoAndar, MadeiraMadeira e Banco Inter). Também participaram dessa rodada Kaszek, Point72, Quona e Banco Mundial (IFC), que já eram investidores.

Segundo Vitor Torres, fundador e CEO da Contabilizei, os recursos serão usados para ampliar a oferta da startup, que tem como missão democratizar o acesso de pequenas e médias empresas aos serviços de contabilidade e abertura de empresa.

De fintech para fintech

Se a vida do empreendedor comum no Brasil já é dura, o universo contábil, fiscal e tributário das fintechs é ainda mais complexo – e quanto mais uma fintech cresce, pior fica. As maiores fintechs vêm preferindo formar os profissionais dentro de casa, pois os grandes escritórios especializados no setor financeiro não têm interesse em atendê-las – e, fora deles, não há muita gente especializada. Quando os sócios fundadores das fintechs vêm de bancos, até têm alguma familiaridade; caso contrário, a diiculdade é grande.

Nas fintechs, o planejamento financeiro é um fator ainda mais importante do que em outras startups, afinal seu principal produto é dinheiro.

Enxergando isso, as fintechs de contabilidade digital passaram a considerar outras fintechs como clientes em potencial.

Inspirado pelo exemplo da Contabilizei, o Account Bank foi criado em março, e chegou a 500 clientes no final do ano. Vanderson Gomes, sócio da fintech, explica que ela nasceu depois que a empresa holding, a multinacional RCM (sexta maior do mundo no segmento) percebeu que não tinha como atender bem as startups – nem em preço nem com pessoal.

“Não somos um escritório de contabilidade, somos uma startup de soluções financeiras de contabilidade para empreendedores”, diz Gomes, prevendo conquistar três mil clientes nesse ano. Entre os atuais, estão a Loft, Kenobi e Jota. O Account Bank chegou a ser analisado pelo pool de investimentos em fintechs da Bossa Nova, e só não passou na peneira porque ainda está em um estágio inicial, anterior ao que determina a “régua” do pool.

Lucas Correa, sócio da RSM Brasil, diz que entre seus clientes estão fundos que indicam as fintechs onde investem para contratar a RSM. “Os investidores querem que elas sejam nossos clientes, pois querem uma contabilidade organizada, precisam enxergar todos os números com transparência.”, diz. Entre seus clientes, estão Brasil PrePagos, Ebanx e Vindi (comprada recentemente pela Locaweb).  

Segundo ele, as fintechs sofrem já de saída, na hora de escolher o enquadramento: se é melhor ficar no Simples, no lucro real ou presumido. “Se a ideia é buscar investimento em algum momento, o ideal é constituir a empresa como sociedade anônima”, aconselha. “Dá mais segurança jurídica para o investidor”.

Independentemente do regime tributário escolhido, se/quando a fintech for equiparada a uma instituição financeira, fica obrigada a seguir as regras do Banco Central – com plano de contas diferente, e obrigações a entregar também diferentes. No caso da Ebanx, por exemplo, Correa explica que a fintech tem um software específico para que os números saiam do sistema interno deles diretamente para o BC.

Ocupando espaços

Ângelo Machado, sócio e fundador da Começando Com o Pé Direito – um spin off da Gerencial Consultoria e Auditoria (GCA), empresa gaúcha com mais de 40 anos de vida – revela que apenas no ano passado criou sua própria identidade visual e jurídica. “Mais do que um escritório contábil, somos uma empresa de contabilidade digital consultiva”, diz, explicando que só a contabilidade não resolve a vida das startups: “Precisamos contribuir com insights. O Brasil é um país superempreendedor mas não tem educação pra isso. Aqui ninguém estuda para ser empresário”, afirma.

Machado entende que a contabilidade é uma ciência “quadrada, engessada, pela própria natureza”. Daí a escolha pelo nome diferentão da fintech: para se diferenciar mesmo.

O esforço para conquistar os clientes tech não se resumiu ao nome. Para atender startups, foi preciso entendê-las e falar a sua língua. “Nos aproximamos de parques tecnológicos importantes como o TecnoPUC e FeeVale Tecpark aqui no Rio Grande do Sul (RS). Visitamos o Vale do Silício, na Califórnia (EUA), onde conhecemos o pessoal da Startse (que também surgiu no RS) e o WeWork. Quando eles vieram para o Brasil, abrimos um escritório em São Paulo e consolidamos a operação. Chegamos a um nível de maturidade que permitiu a independência da GCA”, diz.

Somente entre 15% a 20% dos clientes da Começando com o Pé Direito são fintechs. “O mercado tem dificuldade para atender esses negócios; não existem cursos de contabilidade para fintechs – então, elas internalizam a contabilidade por falta de segurança de terceirizar. As fintechs chegaram a bater na porta dos escritórios de contabilidade e perceberam que eles não tinham profissionais preparados. Então, começaram a formar suas equipes internas, com base no que aprendem no dia a dia – até porque tudo muda rapidamente. É um segmento gigantesco, vai de gestora de investimento até gestores de cobrança, um verdadeiro Oceano Azul para explorar”.

Inovadores e disruptivos

Cristiano Freitas, CEO da Syhus – um escritório de Campinas (SP) que nasceu em 2013 com o objetivo de atender empresas intensivas em tecnologia, inovadoras e disruptivas – atende hoje fintechs como a Méliuz, Sympla e Catarse.

“Somos um escritório de nicho”, diz Freitas. “No começo nosso forte era atender marketplaces e empresas de tecnologia, mas quase todos traziam soluções de pagamento ou fintechs embarcadas”, diz. Daí fomos nos especializando em atender também fintechs”

Segundo Freitas, contabilidade é uma ciência tradicional que não costuma se sentir atraída por clientes com modelos de negócios inovadores; às fintechs restava recorrer a escritórios especializados no segmento financeiro, mas eles não se interessam em atender clientes menores. “Surgimos para ocupar esse espaço”, diz.

Com a evolução da legislação as empresas que eram simples correspondentes bancários ou Instituições de Pagamento e intermediários foram se candidatando a receber autorizações do BC para ampliar seu escopo de atuação. Junto, aumentou também o escopo de obrigações.

“Ajudamos as startups desde o começo, a abrir o negócio; também auxiliamos com questões tributárias nas três esferas e com as obrigações especificas de órgãos como CVM, BC e Susep”, diz.

Para os estreantes ainda sem recursos nem investimentos, a Syhus tem um curso online que ensina ao empreendedor como se preparar “desde o primeiro dia de vida”. E também tem no seu site uma área com materiais gratuitos para quem quiser se informar.

Segundo ele, as fintechs tem como maior preocupação questões regulatórias. As instituições de pagamento só passam a ser reguladas pelo BC quando passam de R$ 500 milhões em ativos; as outras já nascem como instituições financeiras. “Elas querem saber o que muda. Temos que traduzir a regulação. Em primeiro lugar elas precisam saber que precisarão ser auditadas; o BC  exige Cadocs (catalogo de documentos) contábeis e um reporte de transações parecido com o que exige a Receita Federal. Se a fintech atuar no ramo de seguros, além de obedecer o BC terá que seguir regras da Susep também”, avisa.

Robôs da ROIT: oito milhões de lançamentos contábeis em 2020

Os robôs contadores da ROIT, fintech com sede em Curitiba que desenvolve tecnologia para o setor de contabilidade, atingiram a marca de 8 milhões de lançamentos contábeis sem intervenção humana, com 98% de assertividade.

“A automação em processos contábeis já é uma realidade, e a tendência é de que se intensifique com a provável reforma tributária, que vai estimular empresas a migrarem de regime fiscal, exigindo atuação estratégica dos departamentos de contabilidade. A contabilidade está em extrema transformação, deixando de ser operacional e passando a se tornar cada vez mais estratégica, como deve ser”, afirma Lucas Ribeiro, CEO da ROIT.

“Além de toda a praticidade, agilidade e economia de tempo que a inteligência artificial traz aos contadores, garante que as empresas paguem sempre a menor carga tributária possível, sem erros e podendo até mesmo reverter pagamentos feitos de forma indevida”, diz Ribeiro.

A ROIT também registrou quase 2 bilhões de combinações tributárias, regras de retenção, atualização legal com um robô da área fiscal que lê e acompanha o diário oficial. As soluções da empresa incluem robô de contas a pagar, que gerencia toda a relação contábil, fiscal e bancária, com conciliações automáticas. Também serão oferecidas soluções automatizadas para folha de pagamento, que realizam desde o processo de admissão até a demissão, pelo celular ou pela web.

Segundo a fintech, seus robôs da área contábil já respondem por 10 das 12 etapas que, em média, compõem o fluxo de um processo contábil. Em razão disso, este fluxo é chamado de disruptivo – em que a atuação do profissional humano se dá em dois momentos específicos, para análises e decisões estratégicas. Eles realizam lançamentos de créditos e débitos após a chegada, classificação e extração de dados dos mais diversos tipos de documentos. 

O CEO explica que no fluxo tradicional, da primeira à quarta etapa, os trabalhos – concentrados na atuação humana – restringem-se a trâmites de recebimento de documentos, separação e conferência, para então lançamento no sistema (chamado no meio de ERP). Já no fluxo disruptivo, viabilizado pela inteligência artificial, essas quatro etapas consistem no envio de documentos (pelo cliente), qualificação, classificação e o chamado OCR (reconhecimento on-line de caracteres).

Todas essas quatro etapas iniciais, no fluxo disruptivo, mais a quinta, a extração dos campos, são feitas por robôs. Na sexta etapa, então, entra a primeira intervenção humana, na qual o profissional responsável cuida das providências complementares necessárias, antes de dar andamento aos trâmites, que em seguida percorrem três tipos distintos de robôs: o fiscal (etapa sete), o contábil (etapa oito) e o financeiro (etapa nove). Desta, segue para o lançamento em banco de dados, para, na penúltima etapa, receber novamente a atuação humana, na qual se dá a aprovação final do processo, antes da 12ª fase, o lançamento no ERP.

Dootax oferece curso gratuito e online sobre tributação

A Dootax, startup que se propõe a simplificar as rotinas fiscais, otimizando o pagamento de tributos por meio de um software que utiliza RPA (Robotic Process Automation) juntamente com a Arquivei, especializada em captura, estruturação e gestão de documentos fiscais para empresas, realizam o evento virtual TAX Trends 2021, na próxima semana, de 18 a 22 de janeiro, diariamente às 15h. 

A programação inclui ‘lives’ e conteúdos exclusivos com a participação de especialistas do setor, com foco em cinco tópicos: Cenário Atual e Perspectivas para 2021, Tecnologia Alavancando a Carreira em Tax, Contactless e Automação, PIX para Empresas e Reforma Tributária. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas no www.taxtrends.com.br.

Na ocasião, o evento trará dados inéditos de um estudo sobre tendências fiscais, realizado com 397 profissionais de empresas de diferentes verticais e regiões do país, da área fiscal. Assim, durante os cinco dias do TAX Trends 2021, as lives com os especialistas convidados abordarão os resultados deste estudo revelando o panorama do setor com relação a carreira, processos, tecnologia e macrotendências para a área fiscal ao longo deste ano. Ao final do evento virtual, a pesquisa será disponibilizada para download aos participantes. 

“As duas startups se uniram para ajudar o público a entender o que será necessário em 2021, para ser um profissional de Tax disputado pelo mercado e atualizado em relação às principais mudanças que estão por vir. Com isso, o evento tem como  objetivo apresentar ao setor quais são os temas de maior relevância para esse ano”, diz Thiago Souza, co-fundador e head de marketing, da Dootax que participará da live sobre o tema “Contactless e Automação”, no dia 20/01.

EnglishPortuguês
%d blogueiros gostam disto: