Marketplace e credor digital: porque é fundamental entender a diferença entre os dois modelos – Gustavo Muller

Marketplace e credor digital: porque é fundamental entender a diferença entre os dois modelos – Gustavo Muller

Gustavo Muller*

Vivemos em um momento de oferta de crédito e inclusão muito maior do que tudo já experimentado na realidade brasileira, com muitas fintechs e soluções tecnológicas provocando mudanças no mercado. Estou falando de um setor que representa valores superiores a um trilhão de reais, o que atrai a atenção de muita gente, seja do lado empreendedor, investidor e tomador.

Mas será que todas essas novas alternativas são iguais? Bom, não são, e é importante ressaltar as diferenças.

Uma questão importante é a origem dos recursos. Entender como isso é diferente entre as opções do balance lender, que nesse texto vou chamar de credor digital, e um marketplace de crédito.

As diferenças são importantes para entender melhor os riscos e custos.

Credor Digital

Nessa modalidade, é importante ter em mente que o credor corre o risco de crédito de quem está tomando os recursos e, portanto, é quem estabelece o montante do crédito que pode ser concedido, bem como define o preço com base no risco avaliado.

Então, esse credor mantém o risco em seu balanço, correndo o risco de perda e absorvendo os ganhos. O modelo mais conhecido são os das instituições financeiras, fundos de crédito, factorings e, agora, algumas fintechs de crédito.

Mas de onde vem os recursos a serem emprestados? Esse dinheiro vem de pessoas, investidores ou instituições financeiras que apostam na originação e gestão desses credores digitais.

E a que custo esses investidores emprestam para essas fintechs de crédito? A formação desse custo passa por uma avaliação do risco da fintech, sua experiência em crédito ou de seu time, o tipo de carteira de crédito que se pretende ter em balanço e a gestão da concessão e cobrança desses créditos.

Portanto, o custo varia muito, assim como os preços finais para os tomadores, pois, além do risco do tomador, existe um prêmio de risco pelo credor na tomada desses recursos para emprestar.

Marketplace de crédito

Já o marketplace de crédito tem como principal diferença em relação ao credor digital o fato de não correr risco das operações de crédito disponibilizadas em suas plataformas, que disponibilizam riscos variados a serem financiados diretamente por investidores.

Em uma plataforma, esses investidores escolhem o risco que desejam, concorrendo nessa aquisição, em troca de uma remuneração.

Na modalidade, o marketplace não possui balanço e, portanto, não está exposto ao risco das transações. Adicionalmente, a plataforma não representa ou adiciona risco de crédito a transação, o que contribui para um menor custo requerido pelos investidores e, portanto, de financiamento ao tomador.

Mas como tomador, qual deveria ser minha maior preocupação?

Depender de um único credor.

O maior problema, ao meu ver, no modelo do credor digital, assim como nas opções tradicionais, é a dependência ou falta de opção que esse modelo traz ao tomador.

E essa dependência acarreta em outras questões como conflito de interesse.

Como esses modelos gerenciam o conflito e a transparência?

Não posso ou devia generalizar, mas, a partir do momento que o modelo do credor digital tem interesses opostos ao do tomador, ou seja, maximizar seu retorno, enquanto o do tomador é reduzir seu custo, o conflito está criado e será uma batalha constante.

Além de constante, a batalha será assimétrica, porque o credor possui mais informações do tomador do que o contrário. Então, a falta de transparência é resultante dessa relação conflituosa. Em ambos os lados.

Não me entenda mal, o credor digital tem seu espaço e importância, principalmente em um contexto provocativo para a criação de um mercado mais competitivo ou menos concentrado. Mas, em comparação ao modelo do marketplace, apresenta certas fragilidades ou pontos de atenção.

O tomador deve estar alerta e consciente do seu risco e das oportunidades de mercado.

O marketplace empodera o tomador, pois permite entender como diversos agentes veem e entendem seu risco, além de permitir uma maior flexibilidade da origem dos recursos. Seu ganho está atrelado ao sucesso das transações para ambas as partes, que passam a recorrer a solução de forma mais frequente e com maiores volumes.

Em termos de velocidade, ambas as modalidades apresentam soluções com créditos praticamente instantâneos, dependendo do risco e nível de informação disponibilizada.

Outra questão importante é a perenidade da solução, conceder crédito é algo complexo e sujeito a falhas. Portanto, o modelo do credor digital pode trazer um risco adicional por falhas em seu processo de concessão de crédito e eventuais perdas, o que acarretará em um primeiro momento em condições menos vantajosas para os tomadores, ou em uma tentativa de recuperar eventuais perdas, uma tentativa de compensar com volumes maiores, em uma relação risco e retorno desbalanceada, o que pode resultar em descontinuidade do negócio, o que em última instância é ruim para o tomador dependente, que terá que retornar aos credores tradicionais, sem alternativas, e com a relação de crédito desconstruída.

No Brasil tivemos vários exemplos de FIDCs (Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios) que passaram por problemas assim, mas mesmo em mercados considerados mais desenvolvidos ou maduros passam por situações semelhantes, como o caso da Greensill, um balance lender, ainda sem conclusão e cheio de especulações, que está gerando problemas para o mercado e, principalmente, para os tomadores dependentes.

Seja qual for a solução escolhida, sempre tenha em mente essas questões de conflito, dependência, origem dos recursos e entendimento das dinâmicas das soluções para que o seu negócio não esteja sujeito a sorte e sim a decisões pensadas.

*Gustavo Muller é fundador e CEO da Monkey Exchange

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