Fintechs: oxigênio em meio à crise – Beatriz Manzato Antibero

Fintechs: oxigênio em meio à crise – Beatriz Manzato Antibero
Beatriz Manzato Antibero, co-fundadora da Ulend.


Beatriz Manzato Antibero*


Os percalços das pequenas e médias empresas para a obtenção de crédito não é novidade. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) já mostravam, em 2019, que as taxas de juros muito elevadas eram um dos principais entraves enfrentados por 80% dos empresários que buscaram crédito de curto prazo. A segunda dificuldade apontada por eles foram os prazos reduzidos para o pagamento da dívida e, a terceira, a exigência de garantias reais.

Os processos repletos de trâmites, regras, obrigações e procedimentos – a chamada burocracia – também são fantasmas que sempre atrapalharam a vida das empresas que procuram crédito, prejudicando o cumprimento de obrigações imediatas (uma vez que, normalmente, este crédito é usado para atender a demandas de capital de giro).

No auge da crise sanitária, a busca expressiva por linhas de crédito levou à sua escassez. Além disso, as negativas cada vez mais recorrentes por conta de pendências financeiras, falta de garantias e até por ausência de documentos contábeis fizeram com que uma pergunta se tornasse um mantra comum entre os empresários que desejam manter seus negócios: como desburocratizar o acesso ao financiamento para capital de giro e garantir oxigênio básico para o dia a dia das empresas?

Com tecnologia. Ela é a chave para a quebra de diversos paradigmas do sistema bancário que prevalecem até hoje, como por exemplo a crença de que é necessário construir um relacionamento com o cliente antes de validar uma operação de crédito. Se eu tenho ferramentas digitais para analisar a vida financeira deste cliente, conhecer sua capacidade de pagamento e seu histórico enquanto pagador, porque eu preciso de um relacionamento de meses – às vezes anos – antes de conceder-lhe o empréstimo do qual ele necessita? As informações sobre o ritmo econômico de uma empresa são públicas e estão disponíveis em uma mesma base de dados para consulta. Logo, por que não realizar uma avaliação online, receber os documentos certificados digitalmente e liberar o crédito?

Porque é uma questão cultural. Nas instituições financeiras tradicionais, antes de cogitar a possibilidade da obtenção de financiamento, o tomador precisa obrigatoriamente abrir uma conta bancária, começar a transacionar valores, passar seus recebíveis para esta nova conta e manter um longo relacionamento com banco, como se ele precisasse provar que se trata de uma empresa de confiança.

Entretanto, além de arcaico, este método contradiz tudo o que se preconiza quando falamos em transformação digital e em democratização dos serviços bancários. E mostra a dificuldade das instituições financeiras em se adequar aos modelos inovadores nascidos com as fintechs – mais ágeis, menos burocráticos e mais conectados com a vida contemporânea.

De acordo com o Distrito Dataminer, o Brasil já possui mais de mil delas em diferentes categorias, com soluções de crédito, investimentos, finanças pessoais, cartões, fidelização, criptomoedas, meios de pagamentos, seguros, gestão financeira, e muitas outras. Costumo dizer que as fintechs são lanchas, enquanto os grandes bancos são navios. Enquanto as primeiras se deslocam e fazem várias curvas, os segundos ainda estão pensando em como fazer a primeira.

Não é por acaso que o mercado digital e livre de burocracias vem, inclusive, despertando o interesse da B3. Recentemente, em parceria com a Redpoint Eventures, a bolsa testou uma nova plataforma online para reduzir a burocracia no momento de captação de investimentos por startups. A ideia é que a atuação da B3 neste setor aumente a liquidez e facilite a captação de recursos. Ou seja, é um esforço para viabilizar o crescimento e o desenvolvimento do empreendedorismo brasileiro, com foco na desburocratização

Um bom exemplo de facilitação dos créditos é a modalidade peer-to-peer lending (P2P), que consiste em empréstimos realizados entre pessoas, sem interferências de um banco, por meio de uma plataforma digital. Com estruturas físicas enxutas, as empresas especializadas nisso realizam o processo de maneira totalmente online, com custos muito menores e sem necessidade de documentos físicos e outras burocracias. O modelo é bom para os dois lados: enquanto os investidores conseguem retornos maiores, as empresas conseguem taxas menores no momento de solicitar o seu empréstimo.

Talvez você esteja se perguntando se a análise é totalmente digital, mas não é exatamente assim: a avaliação de crédito é híbrida, sendo 80% dela automática, o que agiliza significativamente o processo. Em média, a liberação de um empréstimo P2P leva dois dias úteis para ser liberada. E, obviamente, há controles rigorosos para que o investidor se sinta seguro, já que os princípios continuam os mesmos: demonstração de capacidade de pagamento, boa alavancagem, bom score nos bureaus de crédito e respaldo patrimonial. Só que o processo é muito mais dinâmico e acessível.


Resumindo, muitas empresas deixam de conseguir o fôlego do qual necessitam não porque não mereçam, mas sim porque não são bem atendidas pelos bancos tradicionais. As fintechs que acabaram de chegar representam a democratização do crédito, mais competitividade, taxas mais justas e menos morosidade – tudo o que o pequeno e o médio empreendedor necessitam para respirar melhor em tempos de pandemia.

*Co-fundadora da Ulend

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