Parceria com bancos ou investidores de risco? Fintechs revelam prós e contras das alternativas de funding

Parceria com bancos ou investidores de risco? Fintechs revelam prós e contras das alternativas de funding
Francisco Pereira, CEO e fundador da Trademaster

Denise Ramiro

Parcerias com bancos ou investidores de risco? Há vantagens e desvantagens em cada uma das alternativas de funding, dependendo do segmento de atuação, objetivos e grau de maturidade. Sócios das fintechs revelam que há, inclusive, cada vez mais espaço até para uma composição entre as opções. “Os bancos buscam sinergia, investidores, lucro. Dá para tirar proveito dos dois lados”, diz Francisco Pereira, CEO e fundador da Trademaster.

A fintech de soluções financeiras e de crédito B2B já nasceu com um banco como sócio, o Sofisa, instituição financeira tradicional, especializada no atendimento a empresas e grandes investidores, e hoje conta com mais um banco como parceiro — em fevereiro deste ano recebeu aporte de R$ 100 milhões do BV, com a disponibilização de uma estrutura de funding de R$ 500 milhões para sustentar o crescimento da fintech em 2021.

“Foi o caminho que escolhemos trilhar, talvez por acaso no começo e agora com convicção na entrada do BV. Ter um banco como parceiro é ter um bolso mais fundo, com acesso a linhas de fundings que sozinho não conseguiríamos ter”, diz Pereira. “Ao mesmo tempo, ganhamos flexibilidade para levar soluções não só para os nossos clientes, mas para os do parceiro também”, acrescenta.

Mas há quem prefira o modelo híbrido de financiamento, como a a55. Na sua jornada, a fintech – que oferece empréstimos para startups de tecnologia e e-commerces -, já acessou vários tipos de funding. Começou o negócio com dinheiro próprio, captou investimento anjo, venture capital e junto a bancos (BTG e Santander). André Wetter, presidente e cofundador da a55, também vê potencial em todos eles, a depender do tipo de negócio desenvolvido pela startup/fintech. Segundo ele, fundos de venture capital devem ser encarados como são: investidores financeiros que colocam dinheiro em empresas de tecnologia e startups com o intuito de multiplicar o capital, eles compram uma parte e querem vendê-la depois por um valor mais caro.

O will bank também foi pelo mesmo caminho. Lançado no ano passado pela financeira Avista, grupo formado pela SuperNova e Avista Cartões, recebeu recentemente aporte de R$ 250 milhões da Atmos Capital e da XP Private Equity, que passaram a ser investidores minoritários no capital da fintech.

Recordes

Com a pandemia, que acelerou a adoção de soluções financeiras digitais, e o excesso de liquidez no mundo de juros baixos, recursos não faltam para patrocinar boas ideias e bons negócios mesmo correndo riscos. Só no mês de julho, o financiamento global em startups chegou a US$ 61 bilhões, igualando-se ao recorde histórico alcançado em junho de 2021, segundo dados da Crunchbase, plataforma de informações comerciais sobre empresas privadas e públicas. Em 2021, foram US$ 360 bilhões. No Brasil, o mercado de funding também está aquecido — no mês passado foram investidos US$ 484,4 milhões, e no primeiro semestre as fintechs lideraram os aportes, abocanhando US$ 2,6 bilhões no período, conforme o relatório mensal Inside Venture Capital Report, do Distrito Dataminer, braço de inteligência da plataforma de inovação aberta Distrito.

Inclui investimentos seed, venture capital e private equity para stratups

Sinergia, inovação e compromissos

De acordo com Pereira, os bancos tradicionais também se favorecem da parceria com as fintechs, pois necessitam de um espaço de inovação que o cenário interno deles, muitas vezes, não facilita. “É um ambiente muito árido para a criação de novas soluções e maneiras de pensar, seja pelo estilo corporativo, seja pela parte regulatória que inibe a criatividade. Vejo que os bancos estão se aproximando dessas novas ideias que estão fora do ambiente deles, mas que podem ser solução para os clientes deles também”, diz Pereira.

Wetter, da a55, concorda que além de lucro, os bancos também estão atrás de sinergias com as empresas em que investem, especialmente da inovação tecnológica. “O banco percebe que pode investir na dívida desse modelo de negócio, ter uma participação nessa empresa, ganhar com o crescimento dela, e, ainda, aproximar-se do novo parceiro tecnológico”, diz Wetter. Ele conta que é comum a participação do investidor em conselhos administrativos dessas empresas inovadoras, nos quais poderá ter uma voz, propor direcionamentos, conhecer novos modelos de negócios, adquirir novas plataformas inovadoras para a área de crédito do banco, na bancarização, em uma experiência melhor no boarding e também no seu próprio ebanking.

A parceria de bancos e fintechs pode ir mais longe ainda. A instituição financeira disponibiliza recursos para uma startup de crédito emprestar, por exemplo, e, em troca, pede uma opção de compra de participação na empresa no futuro – e pode ainda garantir novas parcerias com a fintech. “Quando a startup for para a bolsa, o banco vai fazer o IPO dela, quando ela fizer uma captação grande, o banco pode coordenar o processo. Além de poder vender outros serviços bancários para a empresa investida, como a gestão das contas da fintech, o fornecimento cartão, emissão de boleto, da estrutura para vender ao cliente com cartão, de fazer uma operação de câmbio”, diz Wetter. Sem contar que o modelo de empréstimo no qual todo o funding vem do banco, a fintech passa o risco para o investidor.

A a55 tem também uma parceria com a gestora de recursos Empírica. “Eles são um ente regulado, conseguem estruturar um fundo para mim. Eu também preciso fazer o próprio empréstimo e para isso preciso de uma infraestrutura já preparada”, diz Wetter. “Gostamos muito de ter essa proximidade, porque além de eles conseguirem investimento para o nosso negócio, também nos ajudam na questão de estruturação de produtos, de serviço financeiros, que uma hora você vai precisar utilizar de qualquer forma”, afirma o presidente da a55.

Já a Capital Consig, fintech que oferece desde 2020 soluções de crédito consignado para profissionais públicos e privados, levanta funding vendendo os créditos negociados para suas parceiras, uma financeira e dois FIDCs. A fintech começou a funcionar com recursos próprios dos dois sócios, e, depois, para bancar o negócio optou pelo modelo de vender créditos para os parceiros.

Com o modelo de negócios, a fintech já acumula R$ 120 milhões em volume disponível para empréstimos e tem como meta ampliar a oferta ao cliente com serviços bancários digitais. No radar de curto prazo, funding de R$ 100 milhões adicionais em vista e a previsão de triplicar o número de colaboradores para 300 funcionários, metade deles hoje são vendedores de produtos. “A expectativa real para os próximos 12 meses é atingir entre R$ 250 e R$ 300 milhões em empréstimos realizados”, diz o CEO, Sven Kuhn.

De caça a caçador

O Nubank anunciou nesta semana sua entrada em um modelo de negócio que começa a crescer no exterior, no qual fintechs mais maduras passam a atuar também como investidores. Considerado o maior banco digital independente do mundo, com mais de 40 milhões de clientes, surpreendeu o mercado ao anunciar a sua estreia como investidor. Em conjunto com Sequoia Capital e Matrix Partners, o banco digital brasileiro liderou uma rodada de investimentos de US$ 44 milhões na fintech Jupiter, elevando o valor de mercado da empresa indiana em mais de US$ 300 milhões.

Custos e responsabilidades

Quando uma fintech ou startup recebe funding, não é só o dinheiro: junto com o acordo vem uma série de compromissos que precisam ser bem amarrados. “Tem pontos bons e ruins, é questão de colocar na balança. A percepção de valor do negócio vai de cada empresa e daquilo que ela precisa. Pode ser mais barato em termos de custo, mas ter lá na frente um custo oculto. Também pode ser mais caro na hora, mas trazer outros benefícios que serão importantes lá na frente na jornada da fintech”, diz o fundador da a55. “O fato é que o investidor tradicional, o venture capital, tem menos esses outros interesses, o foco dele é puramente financeiro.”

Matt Cohen, fundador e sócio-gerente da Ripple Ventures, fundo de venture capital que investe em startups iniciantes, em artigo publicado nesta semana na Crunchbase faz um alerta aos fundadores de fintechs na hora de alavancar o negócio. “Quando você levanta capital, está se comprometendo a crescer em sua nova avaliação. Gosto de comparar isso a escalar uma montanha. É muito bom ficar bem acima da linha das árvores e chegar ao cume, mas se você não trouxe e conservou comida e água suficientes para descer novamente, você não conseguirá voltar para a base com segurança”, compara Cohen.

Quando ele fala dessa volta montanha abaixo, está fazendo uma analogia com devolver capital aos seus acionistas, que é a responsabilidade que se assume quando se levanta capital. Para ele, o fundador hoje tem a oportunidade de ser seletivo ao decidir de quem levantar capital. E adverte, apenas ir com quem vai lhe dar mais dinheiro pode não ser a melhor escolha. As mesas viraram. “Agora, em vez de os fundadores irem de porta em porta tentando angariar rodadas, os VCs estão competindo entre si para fechar negócios”, acrescenta.

Segundo o especialista no setor, isso coloca os fundadores na posição de encontrar aqueles fundos que podem fornecer a eles o capital de que precisam, experiência e orientação nos próximos anos. Quer se trate de experiência operacional construindo startups, uma riqueza de conhecimento relevante do setor ou uma ampla base de conexões com clientes em potencial, os venture capital podem trazer vantagens cruciais para sua startup, que muitas vezes representa a diferença entre o sucesso e o fracasso de sua empresa.

Na opinião de Cohen, os investidores de venture capital também precisam se tornar mais competitivos ao fechar negócios, que agreguem valor às startups desde o início. Para os grandes fundos de capital de risco, explica ele, isso pode significar simplesmente a emissão de cheques enormes que não podem ser correspondidos. Mas, para a maioria dos VCs, e especialmente nos estágios iniciais, significa chegar à mesa e demonstrar concretamente como você estará lá com os fundadores em todos os momentos, fornecendo-lhes suporte para maximizar suas chances de sucesso”, acrescenta o investidor.

Ele levanta outro obstáculo no capital dos fundos de venture capital. De acordo com Cohen, os fundos muitas vezes retêm as reservas como meio de atrair os fundadores para negócios, mas não fornecem orientação sobre como desbloquear esses fundos para rodadas futuras. “Hoje em dia, as marés mudaram e recai sobre os fundadores a responsabilidade de resistir a essas práticas ambiciosas. Vamos enfrentá-las, se você está construindo uma grande empresa, será capaz de levantar mais capital quando precisar, sem depender das reservas ou estipulações dos investidores existentes”, conclui Cohen.

Uma jornada chamada IPO


Abrir o capital começa a se mostrar também uma nova opção de funding para as fintechs, especialmente depois do sucesso do IPO da Locaweb, em fevereiro último. Neste ano, a B3 já conta com 16 empresas de tecnologia listadas, até 2019 eram apenas quatro, ultrapassando assim a quantidade de bancos, com 12 representantes.

Para o diretor executivo da 2TM, holding do Mercado Bitcoin, Daniel Cunha, o IPO não é um fim, mas um caminho para criar uma estrutura de capital e governança, especialmente para as companhias de tecnologia que demandam inovação o tempo todo. Mas ele faz um alerta. “A vida muda depois da abertura de capital, traz vantagens e desvantagens.” Por isso, ele aconselha o candidato ao IPO a se perguntar qual é o momento certo de abrir o capital. “O investimento de equity não mergulha no seu negócio com tanta profundidade, na bolsa você tem que investir em governança e disputar funding com os graúdos do mercado acionário “, diz Cunha.

O CFO da Warren, Leandro Piano, endossa o que Cunha fala sobre ter clareza do porquê abrir capital na bolsa. “Hoje, se tiver resultado negativo ou positivo falo com meia dúzia de investidores e fazemos os ajustes necessários; quando viramos empresa pública nos tornamos expostos, o processo é complexo”, diz Piano.

Segundo ele, o mercado de ações é líquido, mas muito restrito. “Como empresa privada, você pode errar e consertar o erro, mas quando se torna pública há a obrigatoriedade de não errar, tem que ter mais controle, processos, governança. “IPO é uma jornada, um processo: mais do que de aumento de rentabilidade, o mercado espera que você entregue previsibilidade”, acrescenta Piano.

Do que os investidores gostam


Apesar de tanta liquidez de funding para startups e fintechs, uma peesquisa realizada pela ABFintechs no final do ano passado mostra que metade das fintechs nunca recebeu financiamento, sendo que 36% captaram recursos de terceiros e 64% se financiaram com capital próprio. “Fazer um fundo de milhão ‘qualquer um’ pode fazer, mas quando começa a se falar de bilhão, não é qualquer um que consegue ter acesso a esse tipo de bolso”, diz Pereira, da Trademaster. “E dependendo do tipo de negócio e do momento de escalada dele, certamente, vai precisar de um parceiro mais parrudo financeiramente.”

Para João Kepler Braga, cofundador e CEO da BossaNova, venture capital que investe em startups em estágio pré-seed e focadas em negócios escaláveis e digitais do B2B e B2B2C, a decisão de investir ou não em uma startup passa pela capacidade dela de escalar. Segundo ele, o valuation das empresas do setor de tecnologia está extremamente alto, com fintechs conseguindo fazer o que os grandes fazem. “Olhamos startups que estejam organizadas no ambiente jurídico, com operação e faturamento já em andamento, com os primeiros clientes compradores que não sejam pessoas da família ou amigos”, explica Kepler, durante live realizada esta semana pela ABFintechs.

A coordenadora de operações na SMU Investimentos, plataforma de crowdfunding de investimento para startups de alto impacto, Marcella Sotto-Maior, contou, também na live da ABFintechs, que antes de investir em um negócio, olha o produto, a aderência e o time que está por trás da startup. Ela quer investir em quem possa gerar impacto no seu negócio de crowfunding.

Em meio a tantas novas startups que surgem no mercado, o papel do investidor é separar o que é joio do trigo. Igor Piquet, da Endeavor, chama a atenção para uma continha mágica que se faz no mercado, não científica, de quantas startups são investidas. Segundo ele, de cada 1 mil startups, 100 conseguem investimento anjo, destas, 50 recebem investimento de venture capital, e assim os ciclos vão se afunilando. “É tão difícil receber um aporte quanto virar um Neymar no futebol ou uma Anitta no show bussines”, compara Piquet. “O maior desafio é não deixá-las morrerem, especialmente as que mais precisam da nossa atenção”, complementa ela.

%d blogueiros gostam disto: