Seis fintechs brasileiras registram lucro no primeiro semestre, mas a maioria ainda corre atrás do prejuízo

Seis fintechs brasileiras registram lucro no primeiro semestre, mas a maioria ainda corre atrás do prejuízo

Denise Ramiro

Dos oito bancos digitais e fintechs brasileiros que divulgaram balanços neste ano, seis tiveram lucro. Os melhores resultados até aqui foram apresentados pela PagSeguro e Original. Os números ainda são tímidos, e a amostra, mais ainda – mas já é possível perceber que os bancos digitais caminham para escalar mais um degrau nas suas jornadas: depois do crescimento exponencial, agora é hora de correr atrás de lucro.

Aliás, esse é um movimento que já é notado em mercados mais maduros. “Acho que já tem gente por aqui trabalhando na tropicalização desse conceito”, diz João Bezerra, líder do pool de fintechs da Bossa Nova Investimentos.

Das mais de mil fintechs brasileiras, a imensa maioria é de capital fechado e, portanto, não é obrigada a divulgar resultados. Mesmo assim, algumas já fazem isso voluntariamente de olho na abertura de capital.

Esse grupo inclui algumas das maiores, como PicPay, Nubank e Creditas, que ainda operam no vermelho, mas já mostram iniciativas para reverter as perdas. O Nubank ainda não mostrou seus resultados deste ano – ele costuma apresentá-los semestralmente, com certo atraso – mas nesta semana anunciou uma parceria com a Creditas que pode ajudá-los a saírem do prejuízo.

Ambos estão tornando os resultados mais transparentes, realçando o desempenho de indicadores como receita e faturamento crescentes, visando atrair o interesse dos investidores em um futuro IPO.

A mesma estratégia é usada pela PicPay. Apesar de registrar aumento das receitas no segundo trimestre, que atingiram R$ 563 milhões, a maior carteira digital do Brasil também apresentou prejuízo, de R$ 457 milhões, no balanço do período, devido ao forte aumento das despesas operacionais. Em julho, a fintech de pagamentos anunciou a compra de 100% do GuiaBolso, com a intenção explícita de fortalecer suas operações com o open banking. Foi a primeira vez que a carteira digital informou números tão detalhados, com vistas a atrair público para sua oferta inicial de ações nos Estados Unidos.

No azul

A Stone percorreu o caminho inverso neste ano, por motivos particulares – erro de cálculo no risco das operações antecipação de recebíveis, que ganhou nova dinâmica a partir de junho. A empresa, que se considera uma fintech apesar do tamanho que alcançou – já tem capital aberto nos Estados Unidos – vinha dando lucro, mas apresentou prejuízo de R$ 150 milhões no segundo trimestre, após ganhar R$ 187 milhões de janeiro a março deste ano. O saldo no semestre, porém, ficou positivo em R$ 36,9 milhões.

O Inter, híbrido de banco e marketplace, lucrou R$ 39 milhões entre janeiro e junho e segue com planos de listagem na Nasdaq até o início de 2022. A PagSeguro lucrou R$ 543 milhões no mesmo período, tendo o TPV do PagBank liderando a expansão, em alta de 341,2% ante o segundo trimestre do ano passado, e já corresponde a quase metade do volume consolidado, com R$ 45,6% do total.

O Digio, plataforma digital de serviços financeiros, registrou lucro líquido de R$ 36,7 milhões no primeiro semestre de 2021, um aumento de 497% em relação ao mesmo período do ano passado. O resultado representa o maior patamar alcançado em um semestre desde o início da operação, em 2016, quando ainda era chamado de CBSS.

Os resultados estão relacionados à estratégia de crescimento e diversificação de produtos financeiros do Digio. No último ano, a “bantech” da Elopar (Bradesco e Banco do Brasil) deu um salto de 70% na sua base, indo de 1,6 milhões para 2,7 milhões de clientes.

Também no ano passado, o ModalMais, que também lucrou no período, vendeu uma fatia de 19% para o Credit Suisse e em abril último estreou na B3. Com os recursos levantados nas duas operações, o banco digital vem fazendo aquisições, investindo em parcerias com agentes autônomos para distribuição de seus produtos. Recentemente lançou um aplicativo para investidores de alta renda, o Modal Premium.

Banco digital da J&F (que também é dona da carteira digital PicPay), o Original levou pela primeira vez na vida o balanço para o azul: foram R$ 73 milhões no primeiro ano contábil. Com 5 milhões de clientes em sua base, o Original, após apropriar-se do domínio openbanking.com.br se prepara para a nova fase.

Segundo disse em nota enviada à imprensa Alexandre Abreu, presidente do banco, os resultados são fruto da adoção de algumas estratégias da instituição, como a diversificação da oferta de negócios com cinco frentes de atuação, que não dependem exclusivamente do crescimento exagerado da base de clientes – varejo, atacado, não-correntistas, Banking as a Service (BaaS) e empresas.

Corrida pelo lucro

Um levantamento realizado pelo Boston Consulting Group (BCG) mostra que existem no mundo 249 novos bancos digitais bem sucedidos em volume de clientes, no entanto, somente 13 deles geram retorno positivo até o momento (dez estão na Ásia). China e Japão têm quatro cada um, Coreia do Sul (1), Índia (1), Rússia (1) e Reino Unido (2).
“Em comum, além da origem do negócio, elas nasceram a partir de gigantes de tecnologia ou de varejo, que por anos construíram robustos ecossistemas, diz Bezerra, da Bossa Nova.


Leia também:

EnglishPortuguês
%d blogueiros gostam disto: