Fintechs prosperam, mas também tropeçam: falências atingem mais de 10 por ano em média, segundo levantamento

Fintechs prosperam, mas também tropeçam: falências atingem mais de 10 por ano em média, segundo levantamento

Denise Ramiro e Léa De Luca

*Atualizado dia 29/9

O sucesso das fintechs já é uma realidade no Brasil e no mundo, a digitalização do mercado de finanças é irreversível. Mas transformar uma startup em um Nubank, Pic Pay ou Pag Seguro não é para qualquer um.

Segundo levantamento feito pelo portal Fincatch e obtido com exclusividade por Fintechs Brasil, mais de 50 fintechs quebraram entre 2016 e 2021. Victor Barboza, um dos sócios da Fincatch, alerta porém que o levantamento é preliminar e está sendo atualizado constantemente. “Os dados não são públicos, é preciso garimpar, checar e rechecar”, diz. Segundo o estudo, o ano que mais teve fintech fechando as portas foi 2017. Neste ano, até agora, o levantamento identificou três: Bela Pagamentos, Smart MEI e Brazilex.

Os motivos

Falta de fundos, modelo de negócio ruim, concorrentes mais fortes, falta de visão sobre as dores do consumidor, desafios legais, produto ruim, falta de foco, falha ao pivotar o negócio e má gestão:, desentendimento entre sócios essas são as principais causas pelas quais as fintechs quebram. E, claro, algumas também cometem fraudes.

No mundo, a situação não é muito diferente. O site Failory identificou recentemente 13 cases de fintechs que faliram – 10 nos Estados Unidos, uma na Indonésia, uma na Holanda e uma na Índia.

“A quantidade de fintechs que abre é enorme, e das que sobrevive é muito pequena, a taxa de mortalidade é gigantesca”, diz Boanerges Ramos Freire, da Boanerges & Cia, consultoria focada em pagamentos, crédito e fidelização. Além das que quebram, ainda existem as que desaparecem do mapa engolidas pelas concorrentes.

“Não é simples viabilizar um negócio. Muitas vezes o empreendedor foca em um dos componentes apenas, a tecnologia, que é importante, a base para a transformação digital, mas não é tudo. A tecnologia em si não garante o sucesso de um negócio. Não é porque você tem uma tecnologia diferente que você sabe gerenciar um negócio, trazer pessoas, integrá-las, definir metas, vender, atender o cliente, desenhar e implantar essa estratégia, viabilizar o negócio financeiramente”, diz, acrescentando que apesar de sobrar recursos para investir neste momento, o capital é seletivo. “Mais do que procurar um bom negócio, os investidores procuram pessoas, líderes com visão e competência para transformar essa visão em realidade. E a realidade é dura”.

“Há muitas coisas a serem consideradas ao construir uma nova startup – onde obter financiamento, como validar sua ideia e quais recursos oferecer. Um dos desafios é encontrar um mercado que esteja disposto a pagar por sua solução, mesmo sem saber o que é”, diz Nicolás Cerdeira, do site Failory. “Por isso que 90% das startups quebram”.

Casos controversos

Após desentendimentos com a Stone, a Bela Pagamentos, startup do setor financeiro com sede em Gramado (RS), teve a falência decretada em fevereiro deste ano. Como não tinha o aval do Banco Central para processar as transações junto às bandeiras de cartões, a Bela era uma subcredenciada da Stone; os consumidores pagavam na maquininha da Bela e a Stone processava as transações. Há dois anos, o prejuízo somava R$ 8 milhões.

Na época, a Stone disse em nota que, embora estivesse realizando os repasses aos estabelecimentos comerciais e de serviços, a dívida era de responsabilidade da empresa gramadense. Afirma ainda que repassou à startup os valores que seriam para os estabelecimentos e que, após a Bela alegar problemas de liquidez, foram identificados indícios de fraude e de incerteza de pagamento. Por isso, a empresa decidiu encerrar o contrato.

Arthur Silveira, CEO e co fundador da fintech Bela, diz por seu lado que não há processo contra a Bela nem contra ele movido pela Stone, e que, inclusive, a startup havia feito uma proposta para comprar a Bela.

Concorrentes saem ganhando

O desaparecimento de algumas é a alegria de outros concorrentes. O fim da CobreBemX, uma solução digital para emissão de boletos é um desses casos. Já o app Zuum, parceria entra a Vivo e a Mastercard, deixou até um “heredeiro”: o Social Bank.

A Vivo encerrou as atividades de sua plataforma de pagamento – que tinha como objetivo a administração de contas digitais – no final de 2018. A Zuum oferecia a oportunidade de transferir até R$ 1 mil utilizando um aparelho atrelado a uma conta, equipado com o chip da Vivo. Um ano antes, o app empresa estava próxima de 1 milhão de clientes e almejava dobrar essa base em um ano. Na época, a Vivo enviou nota à imprensa explicando que decisão havia sido tomada devido à reorganização de suas estratégias neste setor. “Os clientes da Zuum foram devidamente informados sobre as mudanças e tiveram a opção de seguir desfrutando de um serviço similar por meio do Social Bank, empresa especializada em pagamentos com celular.”

Fundada em 1995, a CobreBemX foi comprada em 2014 pela WorldPay, que a transformou em uma fintech – seis anos depois, em dezembro do ano passado, o negócio da fintech foi encerrado.Após a aquisição, o CobreBemX passou por um reajuste retroativo no valor de suas licenças, visto que a empresa ficou alguns anos sem alterar o seu valor. Isso fez com que o custo da licença aumentasse consideravelmente, tornando inviável para algumas empresas que já utilizavam o serviço. Tecnospeed e Freenfe foram alguns dos concorrentes que passaram a disputar os clientes da CobreBem.

Fairplace, o primeiro

Em 2010, o Fairplace, o primeiro site brasileiro de empréstimos entre pessoas, teve suas operações interrompidas devido a uma investigação da Polícia Federal, a partir de uma comunicação entre o BC e o Ministério Público Federal. Na época, a justificativa é que a empresa estaria fazendo “agiotagem online”.

Cinco anos depois desse incidente, o Banco Central regulamentou as fintechs de crédito. Essa mudança foi fundamental para dar uma maior liberdade ao mercado – agora, as startups do mercado financeiro podem conceder crédito sem a intermediação bancária.

Ou seja: hoje, o que o Fairplace fazia – também chamado de peer to peer landing – é uma das verticais das fintechs.

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