“A gente precisa acelerar a mudança”

“A gente precisa acelerar a mudança”

Denise Ramiro

Veja a seguir os melhores momentos da entrevista realizada na última terça-feira. As respostas de Renata vieram por áudio via WhatsApp – entre uma e outra atividade que, sabe-se lá como, cabe no dia a dia de uma mulher. 

Renata Malheiros Henriques, coordenadora nacional do programa de empreendedorismo voltado às mulheres Sebrae Delas, revelou ao Portal Fintechs Brasil os obstáculos, as oportunidades e os desafios do empreendedorismo feminino.  Entre estereótipos culturais, machismo estrutural e o peso de ser cuidadora de tudo e de todos, as mulheres vão driblando as dificuldades adicionais que enfrentam para empreender. “O que a gente precisa fazer é acelerar o processo de mudança. Não estamos dispostas a esperar o tempo do tempo para as coisas acontecerem”, afirma.

FINTECHS BRASIL: A palavra feminismo ainda soa mal aos ouvidos de muita gente, inclusive de algumas mulheres. Como você vê o preconceito contra o feminismo, ele existe no ambiente do empreendedorismo?

Renata: Acredito que muita gente desconhece as raízes do feminismo, o que de fato a palavra significa, que é um mundo socialmente igual para homens e mulheres. É claro que homens e mulheres são biologicamente diferentes, mas podem e devem ter socialmente as mesmas oportunidades de se desenvolver em todo o seu potencial. Como o feminismo pode, para algumas pessoas, aparentar o contrário de machismo, é fácil as pessoas o interpretarem de forma equivocada. E, claro, como esse assunto já é bastante cabeludo, as pessoas polarizam, é fácil não gostar, não querer entender direito, nem buscar saber o que significa para depois falar que não gosta daquilo. Mas a grande verdade é que falta conhecimento.

FB: Em 19 de novembro é comemorado o Dia Internacional do Empreendedorismo Feminino. As empreendedoras têm o que comemorar no último ano?

Renata: De um ano para cá foi muito difícil, tivemos a pandemia. As pesquisas mostraram que a pandemia afetou mais as mulheres. E os motivos são culturais. Por isso, recaiu sobre elas (nós), as atividades de cuidados doméstico, com as crianças, com os idosos; na pandemia isso ficou muito acentuado porque as crianças estavam fora da sala de aula, os idosos precisavam de mais cuidados. Como é que poderíamos nos dedicar às outras tarefas?

O que já era uma situação muito precária de sobrecarga de trabalho ficou ainda pior. Estudos do Sebrae mostram que as empreendedoras se dedicam 17% menos horas aos seus negócios do que os homens. Eu costumo brincar, o que é que nós mulheres fazemos quando não nos dedicamos aos negócios? Será que tomamos uma caipirinha deitada na rede? Não (risos), a gente está cuidando da casa, das crianças, dos idosos.

FB: E o que fazer diante disso?

Renata: O primeiro ponto é conversar de maneira adulta e equilibrada sobre a divisão de tarefas. O dia só tem 24 horas para todo mundo, o que fazemos com essas 24 horas é que é o diferencial em nossas vidas.

Se tem uma coisa positiva que dá para nos tirar dessa situação terrível em que vivemos é a de termos jogado luz nesse assunto. De estarmos dizendo de alguma maneira que é preciso ter mais equilíbrio na divisão de tarefas entre todos da família. Se todos se beneficiam de uma comida bem feita, de uma casa arrumada, por que as tarefas têm que recair todas sobre as mulheres. Elas têm outras coisas que querem fazer e têm o direito de fazer.

FB: A pandemia mudou o jeito de empreender das mulheres?

Renata: A pandemia ajudou, positivamente, a acelerar a transformação digital das empresas. Estudos do Sebrae mostram que as mulheres têm feito bastante em relação a isso. É um movimento interessante que vem acontecendo nas empresas lideradas por mulheres. Desde a mais simples transformação, como colocar seus serviços ou produtos em uma plataforma de comércio  eletrônico, até fazer marketing digital pelas mídias sociais, ter uma página no Instagram, vender por Whatsapp, enfim, se relacionar com o seu cliente de forma digital.

FB: E o que ainda atrapalha a trajetória das mulheres que querem empreender (falta capital, apoio familiar e corporativo, políticas públicas, machismo estrutural)?

Renata: De tudo um pouco. Mas se você me perguntar qual a origem do problema, eu te digo o que me perguntam sempre, como coordenadora nacional do Sebrae Delas: por que esse projeto é só para mulheres empreendedoras, não é difícil para os homens empreender também? Isso é preconceito ao contrário? É comum a gente escutar isso.

Mas é muito bom falar sobre isso também, porque nos debruçamos sobre os números e a realidade. A grande verdade é que é difícil para todo mundo empreender, mas nós (mulheres) temos desafios adicionais. E os motivos são culturais. Até 1962 existiam barreiras na própria lei brasileira, que dava o direito ao marido de impedir a mulher de trabalhar se ele assim desejasse. Essa lei só caiu com o Estatuto da Mulher Casada neste mesmo ano. Você pode imaginar o que isso representou ontem na história?

Na verdade, hoje a gente não tem barreiras legais, mas tem as culturais. E elas são colocadas desde a infância, pela nossa educação mesmo, passado de geração para geração, em geral, de maneira inconsciente. Quando a gente escuta que isso não é profissão de mulher, coisa de menina ou não é coisa de menino, isso vai influenciar o nosso jeito de ver o mundo, as nossas decisões quando adultos. Acaba cobrando o preço quando a mulher entra no mercado de trabalho.

As barreiras invisíveis aparecem e são reais. Às vezes, é o machismo que a gente ouve no trabalho (isso não é coisa de mulher, o que você está fazendo aqui, e os seus filhos?), que provavelmente não ocorreria se fossemos homens fazendo a mesma atividade. 

O cerne da questão é cultural. A  boa notícia é que cultura a gente muda, com bastante diálogo, com exemplos, jogando luz ao assunto; conversando no jantar de domingo com a família, com as amigas e os amigos.

FB: A luta é longa e constante?  

Renata: Algum tempo atrás alguém virou e disse: escuta, e se as mulheres pudessem votar? Hum, que absurdo! Outra pessoa falou: e se as mulheres pudessem ir para a universidade? Hum, meu Deus, acabou com a família! E olha aí, essas coisas aconteceram. O que a gente precisa fazer é acelerar o processo de mudança. Não estamos dispostas a esperar o tempo do tempo para as coisas acontecerem.

FB: Por que há poucas empreendedoras na área de tecnologia? Poucas fintechs são fundadas mulheres.

Renata: Um dos motivos também é cultural e vem lá da infância, a questão com a matemática: meninos são melhores em matemática, meninas, em português. Essas coisas que a sociedade vai incrustando na gente e determinando a nossa escolha. Basta ver o baixo número de meninas que fazem vestibular para engenharia.

Claro que tem a questão do exemplo, a gente sonha em ser gente como a gente vê. Se não vemos na nossa infância mulheres engenheiras, motoristas de caminhão, astronautas, a gente acha que isso não é para nós mulheres. Da mesma forma que os meninos, se eles não vêem homens bailarinos, professores primários, se questionam se isso é para eles.

Um dos grandes motivos, sim, vem de viéses inconscientes que são instalados na nossa cabeça desde a infância e que são baseados em estereótipos. E claro, também existe um ambiente bastante hostil para as mulheres na área de tecnologia, que a gente precisa combater. Esse é um ponto, que se liga ao preconceito contra as mulheres na matemática.

FB: O assédio sexual e moral no mundo corporativo acontece também entre mulheres?

Renata: Todos somos criados na mesma cultura ou em um mesmo caldo cultural, e recebemos desde a infância essas normas sociais e culturais que determinam muito do nosso comportamento, do que a gente acha que é certo e errado. E isso não se desassocia das questões de gênero. Acaba que todos podemos cometer erros nessas questões relacionadas a gênero. É um problema. De toda maneira, nós mulheres somos atravessadas pelo machismo estrutural, é algo que está muito entranhado e, de novo, a boa notícia é que a gente pode mudar isso, com diálogo e redes de apoio.

FB: Na década de 70, a filósofa e escritora Simone de Beauvoir já dizia que a grande conquista das mulheres dali pra frente seria a libertação dos serviços domésticos. A coisa não andou tanto assim de lá para cá. Quanto isso prejudica o empreendedorismo feminino?

Renata: Segundo o IBGE, as mulheres se dedicam o dobro do tempo às tarefas domésticas do que os homens. Está aí a equação que não fecha. Se estamos sobrecarregadas com as tarefas domésticas, como é que a gente vai se dedicar as nossas empresas, aos nossos projetos de dentro e de fora de casa? Realmente, esse é um dos nossos maiores problemas.

FB: Quais os principais desafios do empreendedorismo feminino daqui pra frente?

Renata: O principal desafio é a gente conseguir fazer políticas públicas que ataquem essas questões culturais. Precisamos todos ver como a gente enxerga o mundo, se livrar desses preconceitos, estereótipos, como também deixar de passar isso para as nossas crianças.

Outro ponto é a digitalização dos negócios liderados por mulheres, fazer a transformação digital de fato. Esse também é um desafio para todos, mas importantíssimo para as mulheres conseguirem manter a competitividade dos seus negócios. Um desafio também do empreendedorismo feminino é a diversidade, diversificação de setores. As empresas lideradas por mulheres tendem a ser concentradas em três setores: alimentos e bebidas, vestuário e beleza. Dá para ver aí, claramente, um acompanhamento das questões culturais, do que tradicionalmente é conhecido como área de mulher. Por isso, um grande desafio é ter mulheres em outras áreas, nada contra esses setores citados, que são ótimos, mas cadê as mulheres nas exatas, na engenharia, na logística, na robótica, em setores que têm muito valor agregado por conta da tecnologia e inovação?

E finalmente, mais um grande desafio é realmente esse equilíbrio da vida pessoal, no sentido do cuidado com a família, trabalho doméstico, ou seja, ter uma divisão melhor porque a sobrecarga acaba levando a problemas psicológicos, aumenta o número de casos de depressão, de ansiedade e do adoecimento mesmo. Esse é o grande desafio.

FB: Fale mais sobre o Sebrae Delas e a parceria com o desenhista e empresário Mauricio de Sousa.

Renata: O Sebrae Delas é um programa voltado para o empreendedorismo de mulheres, que atende quem já tem um negócio ou uma ideia para empreender. Mais informações: www.sebrae.com.br/delas

A parceria com o Maurício de Sousa é divulgar o empreendedorismo feminino nos gibis da Turma da Mônica. Mensalmente, a revista chega às bancas trazendo uma história de empreendedorismo, com temas como correr riscos calculados, perseverança, planejamento, igualdade de gênero. Essa é a nossa contribuição para que não se instale na cabeça das nossas crianças as mensagens estereotipadas, que são passadas de geração em geração. 

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