Marketplace entra de vez na estratégia dos neobanks: Original e Nubank acabam de aderir à onda, e Afinz é a próxima

Marketplace entra de vez na estratégia dos neobanks: Original e Nubank acabam de aderir à onda, e Afinz é a próxima

Denise Ramiro

Neste mês, mais duas fintechs anunciaram a entrada no marketplace, fortalecendo um movimento que acontece no segmento como forma de diversificar os serviços e manter os clientes por mais tempo em suas plataformas.

O Nubank estreou o novo serviço em parceria com Magalu, Dafiti, Allied (distribuidora de smartphones Samsung, Motorola e Xiaomi) e AliExpress; o “neobank”, que está em contagem regressiva para o seu IPO (oferta pública de ações) em Nova York, promete revelar em breve novos parceiros.

O Banco Original lançou, em 16/11, o Original Store – um portal de benefícios exclusivos que reúne mais de 80 parceiros, entre eles grandes marcas, e traz descontos e cashback de até 10%. “É um negócio bom para os consumidores, para nós e para os varejistas, que não precisam se preocupar com a parte financeira”, diz Vinicius Neves, Head da Original Store.

A tendência foi puxada lá atrás pelo Inter, que lançou o seu e-commerce no final de 2019, colocando na vitrine gigantes como Magazine Luiza, Casas Bahia, Americanas, Amazon, Netshoes, Samsung, Época Cosméticos, Multilaser, Free Fire, iFood e Uber, entre outros. Há um ano, o Inter havia anunciado a sua estratégia de crescimento acelerado, na qual um dos pilares era o marketplace.

Os planos parecem estar funcionando. Neste momento em que as ações do Inter andam na montanha russa, devido à reestruturação societária e à mudança da negociação dos seus papéis da B3 para a Nasdaq (nos EUA), as receitas das transações no seu novo negócio ajudam a manter os resultados. No terceiro trimestre deste ano, por exemplo, o lucro líquido de R$ 19,2 milhões (R$ 58,3 milhões no ano) refletiu “o aumento nas receitas de crédito e das transações no marketplace”, disse o banco em nota. O volume total de vendas (GMV) de seu marketplace atingiu R$ 946 milhões no trimestre, aumento de 151% na comparação anual.

Vieram na esteira dessa nova onda o Agi (ex-Agibank) e o Next, o banco digital criado pelo Bradesco. “A fronteira entre os mundos financeiro e de varejo está cada vez mais tênue. O cliente quer praticidade e conveniência para realizar seus objetivos do dia a dia em um aplicativo no qual confia e em que pode gerenciar seus recursos”, afirma Renato Ejnisman, CEO do Next.

Marketplaces financeiros

O PicPay, fintech de meios de pagamentos com cerca de 60 milhões de clientes cadastrados, passou a oferecer crédito pessoal com o objetivo de se consolidar como um marketplace financeiro. Em setembro, o PicPay avançou na estratégia e ampliou a oferta de serviços ao criar uma plataforma de bens de consumo com a solução da VTEX, uma das maiores empresas brasileiras de e-commerce. A PicPay Store agora tem mais de 30 lojistas (entre elas, Multilaser e Polishop, por exemplo), além de continuar vendendo créditos para recarga de celular, Tele Sena e Uber.

A Finby, startup especializada em confinancimento, também criou seu marketplace, construído em blockchain, que promete aos contemplados terem a possibilidade de retirar o bem de forma descomplicada e sem burocracia.

O Banco Pan, do BTG Pactual, entrou na briga oferecendo sua plataforma de serviços (bancário, cashback e consumo) com a aquisição, em outubro, da Mosaico – dona dos sites Buscapé, Zoom e Bondfaro. A parceria tem o potencial de atrair para para a nova vitrine os 12,4 milhões de clientes do Pan – somando-se aos 22 milhões de usuários mensais do Mosaico.

A Blu, fintech que oferece um marketplace de soluções financeiras para facilitar a relação entre varejistas independentes e seus fornecedores, já tem mais de 15 mil lojistas clientes e 2,5 mil fornecedores parceiros, atuando nos segmentos de móveis, eletrodomésticos, colchões, ótica, vestuário, calçados – e promete entrar com força em outras verticais.

Ano novo para a Afinz

A Afinz, empresa de serviços financeiros que conecta varejistas e consumidores, também aposta em parcerias para complementar sua plataforma. Entre elas, está a que vai colocar em pé seu marketplace a partir do primeiro trimestre de 2022. “Ao focar naquilo que uma fintech pode focar e agregar demais competências por meio de parcerias, vamos oferecer um serviço completo aos negócios e usuários finais”, diz Cláudio Yamaguti, CEO da Afinz.

De acordo Yamaguti, através do e-commerce a fintech poderá explorar melhor as oportunidades de negócios, uma vez que os vendedores participantes de marketplaces já estão acostumados a pagar comissões – de custos, de adquirência e de antecipação, entre outros.

“Essa prática eleva bastante a rentabilidade do lado da fintech, que, por sua vez, traz tráfego para o marketplace através da sua carteira de usuários, o que ajuda a alavancar as vendas. E, dessa forma, todos saem ganhando”, diz Yamaguti. Há um ano no mercado, a Afinz, antiga Sorocred, comemora o crescimento de 116% na sua carteira de crédito para R$ 980 milhões.

“Surgirão muitos outros marketplaces. É uma tendência muito clara”

Carlos Augusto de Oliveira

Carlos Augusto de Oliveira, CEO da Certdox e board member da Bossa Nova, conversou com o portal Fintechs Brasil sobre a proliferação dos marketplaces – como a tendência está sendo administrada pelas fintechs e bancos digitais.

Fintechs Brasil – O Nubank e o Original acabam de anunciar a entrada no e-commerce. É uma tendência?

Carlos Augusto – O Inter foi o pioneiro nesse movimento e seu marketplace já tem um volume relevante. O Agi, ex-AgiBank, já falava no assunto há dois meses. O Next chegou depois. É importante notar que com esse movimento as fintechs tiraram o bank do nome. Banco Inter virou Inter, Agibank virou Agi e o Next já nasceu Next. É uma forma de reter o cliente, oferecendo novos serviços. É uma tendência sim, surgirão outros marketplaces, é um movimento muito claro.

FB – O que as fintechs buscam?

Carlos Augusto – Cada vez mais o que prevalece para conquistar a fidelidade do cliente são as plataformas. Essa experiência já existe no mundo do entretenimento, nas bigtechs, nas redes sociais. São plataformas que fazem a conexão entre vários tipos de serviços, de acordo com a necessidade do cliente, provendo tudo o que ele precisa no dia a dia. Essa tendência acontece no varejo, e em várias outras indústrias que estão incorporando serviços financeiros.

Embora isso possa trazer receita adicional, o objetivo principal é trazer uma experiência fluida integrada para o cliente, fazendo com que a compra seja agradável e o leve a consumir mais. O varejo, quando dá crédito instantâneo, na boca do caixa, quer aumentar o potencial do cliente adquirir produtos por impulso; a própria liquidação da compra torna a experiência mais simples e agradável, desintermediando esse serviço dos bancos.

Mas os bancos também entenderam esse movimento. Ter uma plataforma, um ecossistema cada vez mais customizado para o cliente é tendência. É uma reação natural do mercado financeiro, ainda que encontre alguma dificuldade de realizar isso, para poder não ser totalmente despercebido pelo cliente, que passa a usar outra plataforma.

FB – O que tornou isso possível?

Carlos Augusto – O que o mercado chama de o “fenômeno da fintechização”. Eu prefiro explicar como disrupção, aumento de competição; e agora, de simplificação das integrações através de regulamentações mais amplas, que permitiram modelos de negócios mais simples, que são as fintechs. Com seus produtos específicos, leves e fáceis de se conectar, assim como com a padronização das operações (open banking), com APIs que simplificam essa conexão. O PIX já usa APIs, e o Open Banking está trazendo isso como uma grande realidade.

Os bancos que fizeram o seu dever de casa lá atrás já estruturaram suas arquiteturas de maneira flexível, assim como o varejo teve vários projetos nesse sentido, com camadas de integração, usos das APIs, e com isso o custo, o esforço de integração, ficou muito mais facilitado.

É a tendência que começou a surgir no mercado de ter várias soluções super especializadas. Agora, vemos a otimização e facilitação das integrações, permitindo que a plataforma possa se conectar com essas várias pecinhas que existem no mercado.

Da mesma forma, os bancos que fizeram a lição de casa poderão se conectar com startups de marketplace, de comércio varejista – sejam grandes lojas ou pequenas startups, mas que também desenvolveram APIs, facilitando essa conexão.

FB – O que vem pela frente?

Carlos Augusto – O mundo caminha para isso, plataformas, ecossistemas que consigam atender as necessidades dos seus clientes, cada um com seu papel. Alguns integrando vários serviços para o seu ambiente e promovendo uma experiência completa aos clientes, outros desenvolvendo componentes super especializados, produtos melhores para se conectar, servir essas parcerias e poder se agregar às naves mães, às grandes plataformas, ao BaaS e outras que estão com essa estratégia.

Para quem quiser ir por esse caminho, que é uma grande rodovia de evolução dentro do modelo digital para poder realmente conquistar o cliente, há inúmeras possibilidades. Como também para quem quer se especializar e ser um grande motor de produtos integrados para oferecer. Claro que isso não é unanimidade, pode ser que algumas empresas queiram ficar nichadas, continuar regionais, inclusive no mundo analógico, considerando que tem um grande valor a distribuição pessoal, o contato – e é claro que tem. Mas a grande tendência do mercado é essa.

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