A ressaca financeira do Ano Novo é combatida com ‘terapia’ comportamental – Carolina Rezemini/Credolab

A ressaca financeira do Ano Novo é combatida com ‘terapia’ comportamental – Carolina Rezemini/Credolab

Carolina Rezemini*

Passada a euforia das festas de Natal e Réveillon, é o momento de colocar o novo tempo sob a perspectiva da realidade de conquistas efetivas, mas também do enfrentamento dos problemas que demandam soluções eficazes. Esses nem sempre podem contar com a crença de que o ano só começa de fato depois do Carnaval. A organização das contas, por exemplo, é premente: os boletos não tiram férias.

Tanto para os que cometeram alguns excessos na virada quanto para os mais comedidos, a verdade dos fatos, ou dos prognósticos, é a mesma. Para quem precisa recorrer a empréstimos para sanar seus débitos ou concretizar a realização de planos, 2022 se configura como um período de desafios.

Após um 2021 marcado por um crescimento de 13,9% do mercado de crédito, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) puxou para baixo, já na primeira semana de janeiro, sua projeção de expansão desse setor para este ano, ajustando-a de 7,3% para 6,7%. A revisão se deu em virtude da queda das estimativas de crescimento do PIB em 2022, as quais o Banco Central mudou de 2,1% para 1%.

É um efeito cascata que certamente baterá em muitas portas, mesmo nas daqueles que colocarem o orçamento na ponta do lápis antes de buscar recursos de maneira criteriosa, conscienciosa, na medida do estritamente necessário. Com o aumento da Selic, taxa básica de juros da economia, o custo de captação de bancos e demais instituições financeiras também sobe, e essa elevação invariavelmente será repassada para o tomador final.

Outro fator dessa equação é o nível de inadimplência esperado, outro que está em viés de alta. A Febraban anunciou que os bancos agora projetam 3,8% para esse índice na carteira livre, sendo que vinham trabalhando anteriormente com a expectativa de 3,7%. Como consequência, tendem a apertar o cerco na concessão de crédito.

As incertezas passam ainda pelo cenário de um ano de eleições no país e o impacto que tais circunstâncias geralmente exercem sobre a economia, freando os ímpetos de uma disponibilização mais ampla de recursos. Incluam-se nesse pacote os temores provocados pela pandemia da covid-19 e as variantes do coronavírus, a desvalorização do real e as seguidas ondas de vazamentos de dados pessoais, cuja proteção está diretamente relacionada a processos de análise de perfil para as liberações de empréstimos.

O patamar de endividamento das famílias brasileiras também preocupa ao bater recordes como o de novembro, atingindo 75,6% entre as que ganham até 10 salários-mínimos mensais, segundo medição da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Farol em meio à tempestade

No entanto, existe, sim, uma metade cheia nesse grande copo de inferências. Para enfrentar as intempéries estabelecidas e aumentar as chances e as condições de acesso dos consumidores a seus produtos financeiros, bancos, fintechs e outras empresas de crédito cada vez mais lançam mão da tecnologia e ferramentas de Inteligência Artificial para avaliar características de potenciais clientes.

Dessa maneira, surgem novas estratégias de análise baseadas em variáveis comportamentais que extrapolam as fronteiras do histórico financeiro dos indivíduos. Com elas, a predição dos riscos envolvidos em operações de crédito ganha camadas adicionais de segurança, ampliando a base populacional qualificada para contratar financiamentos e, ao mesmo tempo, ajudando a reduzir as taxas desses planos. 

Tais modelos se sustentam no princípio de que, e esse é um assunto sobre o qual os psicólogos discorrem com propriedade, determinadas características de comportamento do ser humano se equivalem em todas as instâncias de sua vida, seja ao escolher um lugar para passar a noite de Ano Novo, seja ao eleger um modelo de veículo para comprar, ou ao organizar uma agenda, adotar o hábito de poupar, ou no momento de pagar uma conta. Há uma correspondência inequívoca entre os modos de agir em cada uma dessas situações, e é ao estudar os padrões manifestos por eles que a análise inteligente de dados apresenta diagnósticos confiáveis sobre tendências comportamentais.

É um movimento que encontra paralelo em outras áreas de conhecimento. No campo de recrutamento e seleção de profissionais, por exemplo, as organizações intensificam a prospecção de habilidades de comportamento dos candidatos, como criatividade e potencial colaborativo. Elas se tornam ótimos balizadores do desempenho futuro dessas pessoas no dia a dia de trabalho.

Independentemente do contexto, não podemos fugir da combinação entre riscos, perspectivas, provisões, escolhas. Esse é o caminho da vida, e as dificuldades fazem parte dele, quer se pulem ondas de Ano-Novo ou não. O melhor a fazer é encontrar formas de vencer a ressaca, e os dias que virão devem exigir passos firmes nesse sentido, ao que tudo indica.

*Diretora Regional de Vendas para a América Latina da Credolab

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