Fintechs brasileiras que vão para o exterior elegem o México para estrear; Fitbank e Monkey Exchange são as próximas

Fintechs brasileiras que vão para o exterior elegem o México para estrear; Fitbank e Monkey Exchange são as próximas

Dario Palhares

Em processo de decolagem rumo a outros mercados, as fintechs brasileiras que já fincaram pé no exterior – 24% delas – vêm revelando uma forte preferência pelo México em suas estratégias de internacionalização. O grupo inclui, entre outros nomes, Ebanx, Nubank, Dock e a55 – e vai ganhar em breve os reforços de mais startups do ramo financeiro, casos de Fitbank e Monkey Exchange.

A escolha é resultado, sobretudo, de grandes semelhanças entre Brasil e México, que contam com os dois maiores produtos internos brutos (PIBs) e populações da América Latina: US$ 1,4 trilhão e US$ 1,1 trilhão, 212,5 milhões e 128,9 milhões de almas, respectivamente.

“Ambos os países são terrenos férteis para fintechs, pois têm grandes parcelas de seus habitantes sem acesso a serviços financeiros e bancários e, ao mesmo tempo, dispõem de um expressivo contingente de usuários de smartphones”, comenta Diego Perez, presidente da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs). “Além disso, o México também desperta muito interesse por ser, na prática, uma antessala dos Estados Unidos. Trata-se de um laboratório de ensaios perfeito para fintechs estrangeiras que fazem planos de se instalar na maior economia do planeta.”

O potencial de negócios do mercado mexicano, de fato, é considerável. De acordo com o levantamento “Terras de Oportunidades”, elaborado pela Dock, fintechs e bancos são utilizados por somente 45% da população do país, o que corresponde ao nível mais baixo de bancarização entre as seis maiores economias latino-americanas.

Empréstimos, pagamentos e remessas

Em compensação, a renda per capita em 2020 atingia a marca de US$ 8.329, 22,54% acima da média brasileira, segundo dados do Banco Mundial. De quebra, 57% dos mexicanos contam com internet móvel, índice que deve saltar para 65,3% até 2025 com o acesso de cerca de 11 milhões de novos usuários a linhas móveis.

“Centrado nas verticais de empréstimos, pagamentos e remessas, o parque mexicano de fintechs vem crescendo a taxas elevadas nos últimos anos”, observa Ernesto Calero, diretor-geral da Fintech México, o equivalente asteca da ABFintechs, que soma 130 associadas. “São 512 empresas, 16% a mais do que em 2020 e 115% acima do total registrado em 2017. Para este ano, esperamos que cerca de outras 60 fintechs de crowdfundig e meios de pagamento recebam autorizações plenas de funcionamento da Comissão Nacional de Bancária e de Valores, a CNBV.”

O salto ocorreu a partir de 2018, quando entrou em vigor a Lei Fintech, primeiro marco regulatório do gênero na América Latina. A medida serviu de estímulo a investidores, que injetaram US$ 2,35 bilhões em fintechs mexicanas entre 2020 e o primeiro semestre de 2021, e também para startups financeiras de outros países, que respondem por 18% das empresas atuantes naquele mercado. “A Lei Fintech deu segurança jurídica a todos os agentes de mercado, em particular aos investidores”, diz Calero. “Precisamos, no entanto, avançar na legislação secundária.”

Criada em 2017, a a55, focada em financiamentos para startups, se instalou no México há três anos. A operação, que conta com um escritório e 15 profissionais, ganhou escala no fim do primeiro semestre de 2021 com a captação de US$ 35 milhões. Cacifada, entre outros, por Accial Capital, E3 Negócios e Mouro Capital, a injeção possibilitou à fintech alavancar seus empréstimos, concedidos com base na previsibilidade da receita futura do tomador, no mercado asteca.

Mercado menos concorrido

“Antes mesmo de iniciar as atividades, já pensávamos em atuar não apenas no Brasil”, conta o cofundador André Wetter, assinalando que o México foi uma escolha até certo ponto natural como ponto de partida para a expansão além-fronteiras. “O país tem o segundo maior PIB da América Latina, mas seu segmento de fintechs é bem menos concorrido do que o brasileiro. Por outro lado, o México saiu na frente no open banking, o que facilitou o trabalho de análise de crédito.”

A aposta rendeu lucros e dividendos. Hoje, a subsidiária mexicana responde por cerca de 25% do volume mensal de operações da a55, da ordem de R$ 40 milhões, com forte viés de alta. Parte dos R$ 98,2 milhões captados em janeiro último em uma rodada série B, liderada pela Movile, bancará o reforço da estrutura de negócios – incluindo a duplicação da equipe, prevista para breve – e, claro, da oferta de recursos para startups instaladas na nação norte-americana.

“A meta para 2022 é quase triplicar os negócios no Brasil e crescer entre 500% e 600% no México”, diz Wetter, que vem analisando outras oportunidades na América Latina. “São projetos programados para os próximos dois anos. No momento, estamos estudando aquisições e o início de operações 100% por conta própria, desde a escala zero, em outros países da região.”

Escorada no “Terra de Oportunidades”, relatório de 128 páginas elaborado por sua equipe de pesquisas, a Dock implementou a sua internacionalização a toque de caixa a partir do segundo semestre do último ano. O roteiro incluiu a chegada a sete nações latino-americanas: México, Peru, Chile, Colômbia, Argentina, Equador e República Dominicana. O ponto de partida foi o mercado asteca, onde a fintech, que conta com uma plataforma integrada de emissão de cartões, adquirência e Banking as a Service, abriu, em julho último, seu primeiro posto avançado no exterior. Cinco meses depois, a Dock ganhou as manchetes ao concluir as negociações, iniciadas em maio de 2020, para a aquisição da mexicana Cacao, de processamento de cartões.

Cartões ‘white label’

Com sete anos de estrada, a Cacao processou, na temporada passada, US$ 13 milhões em compras realizadas por meio de 4 milhões de cartões “white label” emitidos para cerca de 50 fintechs, casos de Rapyd, Tribal, Clip e Oyster. Agora sob novo comando, a startup asteca planeja ampliar seu cardápio rapidamente. “A ideia é contar também com adquirência e oferecer remessas e pagamentos internacionais, modalidades muito utilizadas na América Latina, e serviços de prevenção de fraudes”, observa Gerardo Bonilla, cofundador e ex-presidente da Cacao, que assumiu o posto de chief revenue officer de toda a operação da Dock, Brasil inclusive.

A médio prazo, sem cronograma estabelecido, a Dock, que movimenta US$ 50 bilhões em sua plataforma e contabiliza algo em torno de 41 milhões de contas ativas, faz planos de desembarcar nos Estados Unidos. A prioridade no momento, contudo, é a América Latina, na qual a fintech pretende deter participações de pelo menos 30% em seus segmentos de atuação nos sete países em que fincou sua bandeira. “No México, nossa taxa de crescimento deve saltar da faixa de 40% a 50% para mais de 60% neste ano”, diz Bonilla. “As oportunidades aqui são enormes. O mercado de produtos e serviços para o público sem acesso a bancos é praticamente virgem.”

Mais comedida, a Monkey Exchange optou por incursões gradativas no exterior. A primeira investida da plataforma de antecipação de recebíveis no mercado externo ocorreu no ano passado, com a inauguração de um escritório no Chile. Já atendendo a um grande grupo local, a filial do Pacífico, pilotada por um único executivo, tem por meta fechar 2022 com cerca de 20 clientes de porte, razão pela qual planeja a contratação de outros quatro profissionais.

“Resolvemos começar pelo Chile por uma série de fatores, como clientes potenciais, estabilidade macroeconômica e desenvolvimento digital do país”, diz o CEO Gustavo Muller. “Na nossa avaliação, o mercado chileno, até em razão de sua menor dimensão, permitiria um aprendizado mais tranquilo. Se cometêssemos equívocos, eles não seriam de grande expressão.”

Aprovada no teste imposto a si própria, a fintech, que projeta para este ano um crescimento na faixa de 230% em antecipações, para a marca de R$ 100 bilhões, prepara agora a abordagem de economias mais robustas da América Latina. No último bimestre de 2021, ela começou a montar sua estrutura de vendas na Colômbia. O passo seguinte será o México, onde Muller e seus pares estão em busca de um parceiro rodado, que conheça a fundo questões regulatórias e usos e costumes locais. “A tecnologia será o nosso principal trunfo no mercado mexicano, que é bem mais dinâmico do que o chileno e o colombiano, mas tem um grau reduzido de inovação”, assinala ele, que traça metas ambiciosas para a sua legião estrangeira. “Acreditamos que até 2024 o volume de negócios das três operações internacionais deverá praticamente igualar o do Brasil.”

Outro candidato de peso ao mercado externo é o FitBank, provedor de infraestrutura de Banking as a Service, que conta, desde 2020, com o JP Morgan Chase em seu quadro de investidores. Com cerca de 170 clientes no Brasil, a infratech planeja, de forma ousada, desembarcar simultaneamente no México e nos Estados Unidos e, a seguir, na América Central. A estratégia para o mercado asteca prevê duas vias: a obtenção de uma licença para operar no sistema de pagamentos mexicano, a exemplo do que a startup já faz no Brasil, e uma joint venture.

Fitbank ja tem potencial parceiro

“Já temos um potencial parceiro no México. As negociações começaram no terceiro trimestre do ano passado e estão bem avançadas”, diz o mexicano Alejandro Vollbrechthausen, sócio-investidor e presidente do conselho do Fitbank. “A ideia é iniciar as operações ainda em 2022.”

Residente em Miami, Vollbrechthausen também já providencia a formatação de uma subsidiária do negócio nos Estados Unidos. Um dos objetivos traçados é garantir espaço no robusto mercado local de remessas internacionais, que transferiu, no último ano, US$ 134,4 bilhões para a América Latina, dos quais 38,31% e 11,38% tiveram como destino o México e a Guatemala. “Por trás desse volume expressivo de remessas está a colônia hispano-americana dos Estados Unidos, formada por 60,5 milhões de pessoas”, observa Vollbrechthausen. “Fica claro, portanto, que para atuar no mercado financeiro latino-americana é preciso ter um pezinho nos Estados Unidos.”

Com ou sem cabeças de ponte em território ianque, as fintechs brasileiras seguem a turbinar suas operações na América Latina. Presente no mercado mexicano desde 2015, o Ebanx projeta para 2022 um crescimento na casa de três dígitos (105%) pelo segundo ano consecutivo naquela praça, ao passo que o Nubank acaba de contrair um empréstimo de US$ 650 milhões para financiar sua expansão no México e na Colômbia. Medidas de apoio ao crescimento do ecossistema latino-americano em geral, por sinal, já estão em pauta no FintechLAC, que reúne o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e entidades do setor de 15 países.

“Um dos temas da próxima reunião do FintechLAC, de 26 a 28 de abril, é a criação de um sandbox regulatório na região para fintechs, nos moldes da União Européia”, diz Perez, da ABFIntechs. “A ideia é garantir espaço para a inovação na área em toda a América Latina.”

OS MEXICANOS ESTÃO CHEGANDO

A disposição das fintechs mexicanas de fincar bandeiras em outros países supera a das  brasileiras. Das 512 startups financeiras astecas, 36% mantêm operações no exterior, 12 pontos percentuais acima do grau de exposição externa do ecossistema brasileiro.

A maioria (31%) atua em outros pontos da América Latina e já começa a marcar presença por aqui. O grupo inclui Bitso, Mozper, Visor ADL e a Clara, plataforma de gestão de gastos empresariais que estreou no mercado local em dezembro último, ao mesmo tempo em que comemorava a sua promoção a unicórnio, garantida por um aporte de US$ 70 milhões liderado, entre outros, pela Bitso.

“Desde que começou a ser estruturada, há dois anos, a Clara já planejava se tornar internacional”, diz Layon Costa, o titular do braço brasileiro, recrutado pelos fundadores Gerry Giacomán Colyer e Diego García em dezembro de 2020.“ A estratégia era se tornar a única empresa da

América Latina a oferecer, simultaneamente, uma plataforma de controle de gastos e cartões corporativos.”

Com cerca de 3 mil clientes, de startups a peixes grandes com milhares funcionários, e dez mil cartões no consolidado, a Clara já mostra serviço no Brasil. Além dos cem usuários “herdados” da matriz, a subsidiária conquistou, por esforço próprio, outros 200 fregueses. A meta, informa Costa, é igualar os números do mercado mexicano a curto prazo. “Também para breve, planejamos reforçar a oferta de serviços, com opções, por exemplo, para pix e boletos”, diz.

A expansão pela América Latina prossegue. Em março, a fintech se instalou na Colômbia, onde conta, de início, com uma equipe de cerca de 30 profissionais. Para os próximos meses, estão previstas aterrissagens em pelo menos mais dois mercados da região. “Já temos executivos atuando no Chile e no Peru”, informa Costa. “A seguir, virão Argentina e Panamá.”

RAIO-X ASTECA

População                                                     128,93 milhões (2020)

PIB                                                                 US$ 1,07 trilhão (2020)

Projeção de crescimento em 2022               3,0%

Projeção de crescimento em 2023               2,2%

Inflação                                                          3,4% (2020)

Bancarização                                                45% da população (2021)

Smartphones                                                 130,8 milhões (2021)

Cartões de débito                                          157,8 milhões (2020)

Cartões de crédito                                         27,7 milhões (2020)

Fintechs                                                         512* (2021)

Fintechs unicórnio                                         5**


* Empréstimos (21%), Pagamentos e remessas (18%), Provedores de tecnologia (14%), Gestão de finanças empresariais (11%), Seguros (8%), Bancos digitais (5%), outros (23%).

** Bitso, Clara, Clip, Kavak e Konfío.

Fontes: Banco Mundial e relatório Terra de Oportunidades

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